14 de Maio de 2021 | Coimbra
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ALICE LUXO

Tertuliar – Alegria e “coisas” boas: petiscos e parlapiê

9 de Abril 2021

Chegados à letra P no nosso ABC da Gastronomia podíamos até pensar em saborear pataniscas, pastéis, pastelinhos, pastelão ou… que tal um pastel de bacalhau? Seria esta uma experiência gustativa dificultada, já que por aqui é como bolo de bacalhau que o reconhecemos e saboreamos!

Do pastel de leite ao pastel de feijão ou ao de amêndoa, dos pastéis de massa tenra ao pastelão, de carne ou vegetais, somos de imediato convidados a saborear o que será seguramente um dos alimentos com uma simbólica absolutamente notável, com variedades mil, e que na simplicidade da sua confeção transporta a memória de uma das grandes descobertas da humanidade, que para sempre mudou o nosso modo de vida: sim, é o pão que aqui celebramos. Do simples papo-seco às variedades mais ou menos inusitadas (de espinafres, de alfarroba, de quinoa, de bolota,…), o pão tem uma longa e ancestral história, sendo o de milho – a nossa afamada broa – escolha primeira para acompanhar 1001 alimentos: levemente tostada e pincelada com bom azeite, temperado com alho, óregãos ou coentros, uma simples fatia de broa de milho revela-se como um daqueles petiscos “de comer e chorar por mais”. Em sandes (mistas, de queijo, de leitão, de ovo…, a lembrar que está na altura de regressar aos piqueniques), torrado, tostado, demolhado, frito, ou mesmo “seco”, pão é sinónimo de alimento, real e metafórico, de partilha e comunidade, assumindo uma versatilidade que nos surpreende o palato: das fatias douradas, ao pudim de pão, das açordas às migas ou ao ensopado de borrego, arriscamos escrever que qualquer alimento fica bem, acompanhado com pão. Já experimentou um chocolate nacional, recentemente regressado às prateleiras, que diretamente nos convida a uma experiência gustativa singular: “coma com pão”?

E agora… que tal um pudim? Flan, de castanhas, de laranja, molotof ou… prefere uns papos d’anjo? Uma fatia de pão-de-ló de Coimbra vinha mesmo a calhar? Em grafia atualizada, aqui fica então a receita que Carlos Bento da Maia nos deixou no “Tratado completo de cozinha e de copa”: 7 ovos, 250gr. de açúcar, 150gr. de farinha de trigo fina, sal fino q.b., manteiga para untar a forma q.b.; partem-se os ovos, separando cuidadosamente as gemas das claras. Às gemas junta-se um pouco de sal fino e o açúcar e batem-se depois muito bem. As claras batem-se em castelo e depois juntam-se às gemas, deitando nessa ocasião a farinha, continuando a bater muito bem e deitando a massa em forma bem untada com manteiga, na qual vai logo para o forno, cujo calor deve ser moderado.

A letra P convida-nos a percorrer caminhos do Mondego para saborear um arroz de pato e polvo panado com arroz malandrinho, o que nos leva a recordar o que por aqui já se escreveu: o arroz e o bacalhau partilham a característica de serem inspiração e alimento principal em 1001 receitas à mesa da portugalidade, sendo que o arroz – carolino do baixo mondego, claro! -, tem a enorme vantagem gustativa de nos permitir saborear um “opíparo” doce de colher a que poucos resistem e nos leva a relembrar que um prato de arroz doce é muito mais do que um prato de arroz doce, é toda uma biblioteca de afetos e tradições sócio-culturais que se torna contemporânea.

Curiosa é a ideia de manter em aberto e ir co-criando, para memória futura, como que uma espécie de “ficha técnica” dos pitéus saboreados, confiantes de que é à mesa que nos sentimos verdadeiramente parte da comunidade que visitamos.

P é uma letra com sabor a… amêndoas, mas também a arrufada e folar. Já reparou na “coincidência” de ser esta a letra com que chegámos à Páscoa, época do ano em que somos diretamente convidados a abrir os braços e abraçar novos começos?

Continuemos entretanto a manter alimentada, e cuidada, a que poderá ser a pergunta gustativa de 2021, o ano em que Coimbra é Região Europeia da Gastronomia (“o que se come aqui?”) e o desafio de, em modo colaborativo, descobrir uma possível identidade gastronómica de Coimbra e Região.

Já sabe certamente, mas é sempre bom (re)lembrar: todas as terças-feira, nas redes sociais (@CCEC2027) há uma conversa que nos convida a fazermos parte do caminho que levará Coimbra a Capital Europeia da Cultura em 2027 e mais além.

Até já e… tertuliemos “coisas” boas!


  • Diretora: Zilda Monteiro

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