O processo é trabalhoso: é preciso urdir uma teia, obedecendo a um cruzar de linhas próprio de forma a que, posteriormente, o traçado não desiluda o Tear. São horas e horas de trabalho, cujo resultado final orgulha quem o realiza. Salomé Carmo é uma das tantas pessoas que encontra na tecelagem uma forma de terapia; um escape do mundo real. Recentemente, transformou essa paixão num negócio próprio: o Tear da Lu, um espaço onde tradição e inovação se encontram, preservando a arte de Almalaguês.
A artesã procurou conhecer melhor a tecelagem de Almalaguês em 2020. Na altura, o objetivo passou por ajudar uma das últimas tecedeiras de Castelo Viegas a vencer uma depressão e a voltar ao tear. “A desculpa que eu arranjei foi ela ensinar-me. A verdade é que acabei por ficar fascinada com esta arte e, mais tarde, decidi aprofundar os meus conhecimentos com umas aulas em Almalaguês”, recorda Salomé Carmo, em declarações ao “O Despertar”.
O gosto foi crescendo de dia para dia, no entanto, a grande evolução no seu trabalho deu-se quando decidiu inovar e criar um presépio para oferecer ao pai. Uma aventura em que cada figura foi feita num molde de pano, através da reutilização de vários materiais. “Faço muitas coisas com material reciclado; com roupas que já não são usadas ou que não estão próprias para utilização”, explica.
Sustentabilidade e inovação
Foi do aproveitar de todos os bocadinhos de pano que Salomé conseguiu dar vida a imagens religiosas que, atualmente, colhem o interesse de dezenas de pessoas. Aos presépios, juntaram-se figuras como a Rainha Santa Isabel, Nossa Senhora de Fátima e Santo António. No entanto, a artesã também vende produtos mais tradicionais, como carteiras, porta-moedas, bolsas, pins e porta-chaves.
“Quem, realmente, dá valor ao artesanato gosta um pouco de tudo”, garante. Todavia, não esconde que o que distingue o seu trabalho do que já existe em Almalaguês são, de facto, as imagens. “Foi por aí que eu me tentei diferenciar: pegar na mesma técnica e nos mesmos princípios, mas fazer algo diferente, neste caso, as figuras”, refere. Uma ação que tem sido uma mais-valia e que promete trazer novos públicos para o artesanato.
“Aqueles aspetos mais tradicionais são procurados por pessoas de uma geração mais velha. Agora, esta geração mais nova procura, se calhar, uma outra abordagem. Tem mais atenção, por exemplo, a essa questão da sustentabilidade”, revela. Nesse sentido, o Tear da Lu não abdica de apostar na reutilização, sobretudo, porque este “reaproveitar” dá origem a novas ideias e, consequentemente, a peças únicas. “É o olhar para os materiais e, a partir daí, tentar criar algo que me permita aproveitar tudo o que tenho”, assegura.
A artesã confessa que “os grandes desafios surgem quando me desafiam a mim”, através de pedidos personalizados que lhe estimulam a criatividade. São essas ações que alimentam ainda mais o seu gosto pela arte de tear, aquilo que Salomé Carmo considera a sua “terapia”. O facto de viver em Castelo Viegas, um local pacífico, apenas lhe permite fazer o pano aos fins-de-semana. Isto porque “o tear obedece a um procedimento que faz barulho: o bater”.
Preservar a identidade
A experiência de Salomé Carmo tem-lhe mostrado que, passo a passo, as pessoas começam a recuperar a curiosidade pelo artesanato. Todavia, a artesã frisa que “ainda há um caminho a percorrer” e que, nessa perspetiva, Coimbra tem feito uma boa aposta ao realizar cada vez mais feiras. “Já há uma divulgação de puro artesanato”, orgulha-se. Uma aposta fundamental, já que “se nós não conseguirmos sobreviver, em termos financeiros, destas artes, a tendência é que elas se percam”, lamenta.
Com essa perda, perde-se, também, por consequência, uma tradição de tantos e tantos anos. “A identidade do povo e destas zonas são mesmo estes trabalhos que foram desenvolvidos em tempos remotos”, sublinha, acrescentando que essa essência se tem vindo a diluir. “As aldeias estão a perder um bocadinho a sua essência (…) Castelo Viegas está a perder completamente a identidade”, alerta.
Assim, o Tear da Lu nasce como uma espécie de esperança. Um espaço que acredita que uma nova roupagem pode mudar o rumo desta arte, atraindo as gerações mais jovens para o mercado. “Se nós pegarmos na mesma técnica e fizermos algo mais moderno, vamos ao encontro dos gostos mais atuais. É essa a visão do ‘Tear da Lu’: fugir a esse tradicional e fazer coisas diferentes”, afirma Salomé Carmo.
A artesã concilia esta sua paixão com um emprego que exerce a tempo inteiro, no entanto, não esconde o desejo de, um dia, poder viver inteiramente da tecelagem. De momento, as vendas apenas são realizadas através da sua página online, já que o Tear da Lu ainda não tem um espaço físico. “Há essa vontade, mas também tenho de ter os pés bem assentes na terra, porque sabemos que, hoje em dia, é complicado”, salienta.
A denominação do “Tear da Lu” nasce como uma homenagem às suas avós, Lurdes e Lucinda. Duas mulheres que lhe mudaram a vida, às quais se veio a juntar uma terceira: Luísa, a antiga dona do tear onde, atualmente, Salomé Carmo faz magia.