13 de Maio de 2021 | Coimbra
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Retina pode ajudar no diagnóstico precoce do alzheimer

17 de Janeiro 2020

Um estudo longitudinal sem precedentes, realizado por uma equipa multidisciplinar da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), demonstrou que a retina poderá funcionar como um biomarcador não invasivo relevante para o diagnóstico precoce da doença de alzheimer.

Caracterizada pela perda gradual e irreversível de determinadas funções cerebrais, como a memória, a atenção e a linguagem, esta doença representa cerca de 60 a 70 por cento dos casos de demência, segundo a Organização Mundial de Saúde. O diagnóstico, que depende da realização de vários exames, não é fácil de fazer e, frequentemente, é feito numa fase moderada ou avançada da doença, sendo, por isso, urgente identificar biomarcadores subclínicos que possam ajudar a diagnosticar precocemente o início da doença e de forma confiável.

Uma vez que a retina é um tecido do sistema nervoso central (tem a mesma origem embrionária que o cérebro) e é considerada uma extensão do cérebro, a equipa, coordenada por Francisco Ambrósio, explorou o conceito da “retina como um espelho ou janela para o cérebro”, isto é, a retina pode “mostrar” o que acontece no cérebro, no contexto de doença de alzheimer.

A equipa explica que, nesse sentido, foi “realizado um estudo longitudinal, único e inovador, com um modelo animal triplo transgénico da doença de alzheimer (3×Tg-AD), um murganho que possui três genes humanos com mutações associadas a esta doença neurodegenerativa, no qual foram avaliadas em simultâneo as alterações da retina e do córtex visual, in vivo, em quatro tempos diferentes: quatro, oito, 12 e 16 meses de idade”. Foi também usado um grupo de controlo (murganhos saudáveis).

Os investigadores pretendiam encontrar respostas para várias questões, procurando perceber, por exemplo, se, partindo do pressuposto de que na doença de alzheimer há alterações na retina, onde é que surgem as primeiras alterações, se no cérebro ou na retina; onde é que evoluem mais rapidamente; se há alguma relação entre as alterações que ocorrem no cérebro e na retina; e quais são as regiões da retina ou do cérebro que são mais afetadas.

Em cada um dos períodos de vida do modelo animal (que tem uma esperança média de vida de dois anos), os investigadores efetuaram uma bateria de testes em que avaliaram a estrutura e a função da retina, assim como a estrutura cerebral.

Os resultados, já publicados na “Alzheimers Research & Therapy”, uma das principais revistas internacionais na área das Neurociências e da Neurologia Clínica, indicam, como explica o líder do estudo, “a existência de alterações estruturais e funcionais na retina e alterações estruturais no córtex visual do modelo animal 3×Tg-AD”. Mostra também que “estas alterações neurais poderão ser usadas como um biomarcador adicional para o diagnóstico precoce da doença de alzheimer”. Além disso, este trabalho “reforça a possibilidade de se usar o olho como uma ferramenta adicional (de modo não invasivo) para o diagnóstico precoce e monitorização terapêutica da doença de alzheimer”.

De forma mais simples, o estudo permitiu notar que “a retina, até certo ponto, mimetiza o que acontece no cérebro, isto é, no cérebro há uma redução do volume da estrutura do hipocampo (região do cérebro associada à memória) e do córtex visual e na retina também ocorre uma redução da sua espessura”. “Em todas as fases estudadas [quatro, oito, 12 e 16 meses], observou-se uma redução da espessura das camadas mais internas da retina, o que se correlaciona com a redução do volume do hipocampo e do córtex visual. Esta correlação sugere que se poderá utilizar a retina como mais uma ferramenta para o diagnóstico precoce da doença de Alzheimer”, explica Francisco Ambrósio.

Posteriormente, a equipa, constituída também pelos especialistas Miguel Castelo-Branco, Rui Bernardes e Isabel Santana, realizou estudos com humanos, tendo confirmado “a existência de algumas alterações na retina e uma associação positiva entre as alterações no cérebro e na retina”. Francisco Ambrósio adverte, no entanto, que “para uma validação robusta da possibilidade de se usar a retina como biomarcador, é necessário aumentar o número de doentes”.

Apesar se ter focado na doença de alzheimer, este estudo pode ser alargado a outras patologias, como, por exemplo, doença de parkinson, esclerose múltipla e esclerose lateral amiotrófica.


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