Sensibilizar os adolescentes, fornecer-lhes informações educativas e promover uma melhor compreensão e cuidado da sua fertilidade. São estes os principais objetivos do jogo que desafia os estudantes portugueses do ensino secundário. Chama-se “FActs!” e foi desenvolvido pela Fertility Europe, uma organização pan-europeia composta por 31 associações que representam os pacientes com infertilidade. Em Portugal, o projeto piloto é coordenado pela Associação Portuguesa de Fertilidade (APFertilidade), sendo que este também já arrancou na Polónia, Noruega e Bulgária.
“Alguns jovens pensam que engravidar é um processo fácil e rápido, mas quando percebem que a probabilidade de uma mulher, entre os 25-35 anos, engravidar no espaço de um mês é apenas de 25%, ficam muito surpreendidos”, explica a diretora executiva da APFertilidade, Joana Freire, em declarações ao “O Despertar”. Nesse sentido, o “FActs!” vem ajudar a quebrar preconceitos e a esclarecer dúvidas. “Questões como estas aparecem no jogo e é importante os jovens perceberem que alguns pressupostos podem não refletir a realidade”, alerta.
Comportamentos como fumar, consumir bebidas alcoólicas ou ter uma alimentação desequilibrada podem ser prejudiciais à fertilidade. Contudo, nem sempre os mais novos estão a par dessa realidade. “É fundamental termos conhecimento sobre a nossa saúde reprodutiva, sabermos que existe a infertilidade e que esta doença pode trazer complicações no momento de querermos ser mães ou pais”, sublinha a responsável.
Presença nas escolas secundárias
O jogo consiste em quatro cenários, – de níveis diferentes -, com nove perguntas. Cada resposta certa permite conquistar uma estrela. No final, ganha quem obtiver a pontuação mais alta. O projeto é dirigido aos alunos do ensino secundário e, até ao momento, já visitou, presencialmente, seis escolas do país. “Quando vamos às escolas começamos por apresentar, de uma forma simples, o trabalho da APFertilidade (…) ou seja, que cuidados devemos ter e como podemos preservar a nossa fertilidade”, adianta Joana Freire.
De seguida, é dado a conhecer o “FActs!”, um momento pelo qual os alunos aguardam com entusiasmo. “Acham o jogo importante e sentem que aprendem, ao serem questionados com temas que ainda não tinham pensado, mas que consideram pertinentes para a sua vida adulta”, conta. De acordo com a diretora executiva da associação, “é importante, enquanto jovens e adultos, termos conhecimento que a fertilidade existe, estarmos atentos e sabermos o que fazer em determinados momentos”. Por exemplo, antes de engravidar é fundamental consultar um médico e verificar a saúde reprodutiva. “Se nesta fase for diagnosticado algo, podemos estar já sensibilizados e familiarizados com o tema da infertilidade”, salienta ainda.
Assim, a responsável destaca um dos pontos sobre os quais os adolescentes devem ter informação, mas que, muitas vezes, desconhecem: “a idade da mulher e do homem é um factor que tem uma grande relevância para a fertilidade e quando se pensa avançar para uma gravidez. Para a mulher a partir dos 35 anos, há um decréscimo da quantidade e qualidade dos óvulos”. Esta e tantas outras questões são esclarecidas com o auxílio do projeto piloto.
Todas as escolas são convidadas a aderir à iniciativa, sendo que esta é totalmente gratuita. Para isso, basta entrar em contacto com a APFertilidade para que seja agendada uma visita ou, nos casos que assim o pretendam, para que sejam disponibilizados materiais, de modo a que o jogo se realize com a orientação dos professores.
Relatório sobre literacia dos jovens
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente, uma em cada seis pessoas no mundo sofre de infertilidade. Números que despertam a consciência de que o problema existe e deve ser encarado de frente. Deste modo, Joana Freire não tem dúvidas de que os estabelecimentos escolares, através das disciplinas de ciências e biologia, deveriam expandir o seu foco. Ou seja, não falar apenas sobre contracepção, mas discutir também a infertilidade. “Este trabalho talvez pudesse ser integrado no Programa de Apoio à Promoção e Educação para a Saúde (PAPES), e alargar os objetivos dos Afetos e Educação para a Sexualidade”, sublinha.
Enquanto tal não acontece, o projeto europeu vai continuar a promover a literacia do tema junto dos adolescentes. Afinal, é “através de uma educação lúdica que conseguimos criar proximidade, informar, sensibilizar e desmistificar” conceitos como este. Só compreendendo as dúvidas será possível delinear estratégias futuras e é isso que a Fertility Europe pretende com este jogo. “Permite-nos traçar estratégias no âmbito das atividades, conteúdos, que vão ao encontro do que as pessoas querem ouvir, ler, conhecer. É fundamental escutar as pessoas e perceber quais as necessidades e questões que têm”, realça Joana Freire.
A APFertilidade tem, por isso, vindo a recolher dados para análise que, na fase final do “FActs!” vão culminar na realização de um relatório sobre a literacia dos jovens nesta matéria. “Estamos confiantes de que este projeto vai aumentar a consciência dos jovens, mas também vai incentivar conversas abertas e construtivas sobre saúde reprodutiva, contribuindo para uma sociedade mais informada e capacitada”, conclui a responsável.