8 de Maio de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

“Probes” de Cristo

6 de Dezembro 2019

Era assim que nos ensinavam a ver aqueles que no dia-a-dia mendigavam por estas terras do Senhor: eram cegos, aleijados ou simplesmente pobres. Alguns provinham de mais perto, dali da Bairrada, do Baixo Mondego, da Beira-Mar. Mas havia os que palmilhavam léguas e léguas, vindos das serras e dos confins do Mundo se necessário fosse, para de regresso poderem levar uns cus de batatas, uns punhados de milho e de feijões, uns nacos de toucinho gordo e reimoso, que estava esquecido a um canto da salgadeira… Era a fome e a miséria que imperavam! Não batiam a todas as portas, pois eles bem sabiam quem lhes podia dar a esmolinha por amor de Deus e quem não tinha sequer para si. Muitas vezes eram corridos pelos cães, de quem geralmente se defendiam com o cajado que lhes servia de amparo ou de guia, especialmente no caso dos cegos, quando conduzidos pelo garoto tirado da escola e por eles contratados junto dos pais. Era o moço do cego. Quase sempre traziam consigo papéis impressos que continham cantigas, versos e estórias de desgraças que iam vendendo, sobretudo onde havia mercados e feiras, ou no fim das missas no adro das igrejas. Eram os chamados cegos papelistas, havendo ainda hoje na Gândara memória do cego Amorim, que tangia a guitarra e cantava, enquanto o miúdo, pelo meio de quem tal ouvia, tentava angariar uns tostões em troca daquela que era conhecida por literatura de cordel. Tal designação advinha dos ditos papéis se encontrarem muitas vezes pendurados em cordões nas praças e recintos que frequentavam. Quanto aos aleijados, também estes faziam parte da família dos necessitados, sendo frequente evidenciarem mais profusamente os seus defeitos físicos e as suas deformações, o que os levava a um maior coxear, a uns dedos mais tortos, a uns olhos esbugalhados e a umas vozes de grande gaguez.

Destes, retemos a figura do “Inchadinho”, da Ermelinda e da Margarida Sanga que arrastavam os pé cheios de feridas, faziam caretas e abanavam as cabeças desordenadamente para causarem acrescida piedade. E havia os simplesmente pobres, pobres de todos os dias e pobres sazonais ou pobres de Inverno. Estes eram geralmente pescadores vindos de longe, miseravelmente pobres, que nesta estação não podiam ir ao mar e, para sobreviverem, mendigavam e aceitavam tudo o que lhes dessem. Quanto aos pobres de todos os dias, a assiduidade deles em certas casas era uma constante e traduzia-se na possibilidade de matarem uma vez mais a fome, quantas vezes à custa de aviarem um recado, de racharem umas achas para o lume, de encherem a manjedoura aos bois ou de terem rezado logo à entrada uns Padre Nossos e umas Avé Marias a mais, mas não tantos que a esmola ficasse paga. Era o caso do tio Manuel Marau e da Selubisca, assíduos na casa do médico lá da terra, onde duas a três vezes por semana, de sacos às costas se juntavam aos passantes, para comerem a sopa que a Senhora sempre dava por intenção das almas do Purgatório. Notória era a hierarquia existente e respeitada entre todos os que ali acorriam, funcionando o Marau como cabecilha, ao ralhar com os que se alambazavam frente à broa e à bacia do comer, pois o que ali estava era para todos, avisava! Porém, com quem ele era mais severo nas palavras e atitudes era com os cegos, por via de eles darem nas vistas e chamarem a atenção quando se punham a tocar e a cantar, mas se calhar nem sabiam rezar! – Fora, fora daqui, dizia, vão para as vossas terras que a gente por estes lados nunca teve cegos e a Senhora tem a devoção de dar a sopa aos pedintes de cá! E quantas vezes a velha criada não teve de intervir para serenar os ânimos, enquanto acrescentava à panela mais um punhado de farinha para matar a fome a todos aqueles “probes” de Cristo.


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