Licenciada em Psicologia, Lara Fresco não esconde que sempre foi apaixonada pelo universo literário. Não há dia em que não leia e acredita que foi o gosto pela leitura que a levou até à escrita. “Por Amor a Madalena” é a sua primeira obra publicada e pretende sensibilizar a comunidade para o tema da violência no namoro. Além disso, a escritora de 27 anos decidiu incluir a cidade de onde é natural no seu livro, sendo grande parte da narrativa desenvolvida em Coimbra. Em entrevista ao “O Despertar”, Lara Fresco admite que a eterna cidade dos estudantes “só pode ser palco de grandes histórias”.
O Despertar [OD]: Um bom livro nasce de um amor incondicional pela escrita?
Lara Fresco [LF]: No meu caso, não foi bem assim, porque nunca escrevi muito. Fui escrevendo ao longo da minha vida, mas coisas mais esporádicas, mesmo só para exercício de escrita. Não era algo que ia praticando. Se me perguntar se acho que um bom livro nasce de um amor condicional à leitura, no meu caso, sim, sem dúvida alguma. Acho que o facto de ler tanto ajudou a que saísse um bom livro.
[OD]: Os livros fizeram parte da sua vida desde sempre?
[LF]: Desde sempre, sim. Sempre gostei muito ler. Na altura da Covid-19, essa paixão intensificou-se e é um hábito que tenho diariamente. Eu costumo dizer que o meu dia não acaba bem se eu não ler nem que seja algumas páginas. Portanto, é mesmo uma paixão que eu acho que nunca me vai largar.
[OD]: Editou o seu primeiro livro aos 27 anos. “Por amor a Madalena” nasceu na altura certa?
[LF]: Nasceu na altura em que tinha de ser. O “Por Amor a Madalena” nasce de um desafio que a, agora, minha editora colocou, no verão passado, nas redes sociais. Eles andavam à procura de manuscritos de romances e, na altura, eu pensei que não tinha nada a perder em experimentar escrever uma história. Acho que nasceu na altura em que tinha de ser.
[OD]: Mais do que nunca, é importante abordar o tema da violência no namoro?
[LF]: Mais do que nunca! Na altura do lançamento do livro, eu lembro-me que faltavam poucos dias para entrar em pré-venda, e saíram, inclusive, perto do Dia dos Namorados, reportagens sobre estudos da UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) a falar dos hábitos que, hoje em dia, os jovens adultos têm em namoros. No fundo, aquilo que eles consideram saudável. Eu própria já fiz algumas ações de sensibilização em escolas dentro desta temática, e ouvimos relatos que vão desde eles acharem que é completamente aceitável partilhar o pin de localização com o parceiro ou parceira para justificarem onde estão, a haver o controlo do telemóvel, do que vestem ou de como agem. Infelizmente, hoje em dia, eu acho que os hábitos de relacionamento saudável estão um bocadinho deturpados. Penso que, cada vez mais, é importante sensibilizar para a violência no namoro e para como uma relação tóxica e abusiva pode começar.
[OD]: De que forma é que essa sensibilização é feita neste livro?
[LF]: Eu acho que todo o livro é uma ferramenta de sensibilização do início ao fim. Eu tentei que a história representasse, na íntegra, aquilo que pode ser um relacionamento abusivo e tóxico. Às vezes, os sinais são muito silenciosos e nem sempre damos conta. Portanto, todo o livro, toda a história, acaba por ser bastante pertinente para os nossos jovens. Tive muitos testemunhos de pessoas que passaram por situações semelhantes àquela que se passa no livro e que disseram mesmo isto: que é assim que começa, são coisas silenciosas. Este passa a palavra que diz respeito a esta história vai ser importante para ela chegar a mais pessoas e, assim, poder fazer este alerta.
[OD]: Acredita que o seu livro poderá ajudar pessoas a identificarem que estão a ser vítimas de violência no namoro?
[LF]: Sim, aconteceu. Eu tive já alguns testemunhos de pessoas que me mandaram mensagem e que me disseram “eu estou a passar por isto, mas não tinha noção de que isto era um caso de violência”. Às vezes pode ser só violência psicológica ou verbal e as pessoas vão desvalorizando. Tive, inclusive, casos de pessoas que depois do ler o livro saíram de relacionamentos abusivos. Isso é muito gratificante. Desde que comecei esta jornada do “Por Amor a Madalena”, que disse que, se o livro ajudasse uma pessoa que seja a ficar desperta para a situação que está a passar, a missão dele estaria cumprida. Felizmente, ele cumpriu-a logo desde muito cedo.
[OD]: No fundo, traz-lhe a certeza da importância que a escrita pode ter na vida do outro?
[LF]: Sim. Um dos lemas da minha vida é que os livros salvam. Neste caso, eu tentei escrever um que tivesse mesmo este poder de salvar e, felizmente, já conseguiu salvar algumas pessoas.
[OD]: Uma grande parte da história acontece em Coimbra. É importante para si que a sua cidade berço esteja representada na obra?
[LF]: É importantíssimo. Era ponto assente, desde início. Eu ainda nem tinha bem noção de qual é que ia ser a trama do livro, mas já tinha a certeza absoluta de que qualquer livro que eu escrevesse se ia passar em Coimbra. Acho que é uma cidade muito mal aproveitada no meio literário. Na maior parte dos livros que são escritos por autores portugueses são raros aqueles que se passam em Coimbra. Não percebo muito bem porquê, porque é uma cidade tão rica em História e que, todos os anos, vê tanta gente a entrar e a sair, por causa da Universidade, que, realmente, só pode ser palco de grandes histórias.
[OD]: A cidade valoriza os autores de Coimbra?
[LF]: Faz-me essa pergunta numa altura pertinente, pós Feira do Livro, e posso dizer que nunca fui contactada, por parte do município, nem nada. Até mesmo por parte de jornais da casa, só recentemente é que esse contacto começou a ser feito. Eu acho que é um processo. Estamos a caminhar para lá.
[OD]: Que feedback é que tem obtido por parte do público?
[LF]: Tem sido mesmo muito bom. Bastante melhor do que eu estava à espera. Eu preparei-me mentalmente para isto poder ser um fiasco, mas não. Os feedbacks têm sido todos excelentes. Há muita ansiedade por parte dos leitores para a continuação deste livro e eu fico muito feliz.
[OD]: O final do livro é aberto. Já está a pensar nessa continuação?
[LF]: Já estou a escrever e a continuação, em princípio, estará nas mãos dos leitores em 2025. Eu ainda não posso revelar o mês, mas, em 2025, vamos ter um novo livro.
[OD]: Em futuras obras, pretende continuar a retratar temas fraturantes da sociedade?
[LF]: Sim. Eu acho que é muito importante nós usarmos os livros como uma ferramenta de sensibilização. Não só para esta questão, por exemplo, da violência no namoro, mas para outros temas, como a saúde mental, distúrbuios alimentares… Há mesmo muitos temas que podem ser pertinentes e importantes de serem abordados no contexto da literatura. Ao mesmo tempo que o livro pode ser lazer, também pode ser uma ferramenta de alerta e sensibilização. Portanto, pelo menos, nos livros, eu vou tentar sempre que isso aconteça.
[OD]: Despertar consciências: é essa a autora que pretende ser?
[LF]: Exatamente, sim, sem dúvida.