16 de Junho de 2026 | Coimbra
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Outros mundos em Coimbra

8 de Agosto 2025

Num fim de semana de verão, e temperaturas superiores a 30 graus, as árvores da Praça da Lusofonia (em Coimbra) acolheram na sua sombra as comemorações do dia da mulher africana. Durante dois dias houve comidas, bebidas, música e danças africanas. Num ambiente agradável e alegre foi possível conhecer um pouco da cultura de outros países. Entre outros, chamou-me a atenção a banca do Sudão/ Sudão do Sul. Tinha expostos vários panos de algodão bordados à mão com figuras de animais. A escolha das cores sobre os tons suaves do pano era perfeita. E a minúcia do trabalho sobressaía. Procurei saber de quem eram os trabalhos e foi assim que conheci a Aker – uma sudanesa do Sul que chegou a Portugal em 2018 ao abrigo do programa de acolhimento e integração de refugiados. Uma mulher incrível, uma sobrevivente. Depois de ouvir a sua história pensei: que privilégio ter esta pessoa em Coimbra e, através dela, ter um bocadinho mais de mundividência. Quantas histórias extraordinárias nos podem surpreender se tivermos curiosidade em conhecer imigrantes que chegam de países distantes.

Aker é uma mulher de 38 anos, que agora se chama Elisabete. Na verdade, ao fugir da guerra perdeu todos os seus documentos e teve que se registar novamente.

Mãe de três crianças e dois adolescentes, escolheu Coimbra para reconstruir a sua vida e dar aos seus filhos a possibilidade de crescerem em paz. Gosta muito da cidade, das pessoas, e só lamenta as dificuldades na relação com a AIMA (Agência para a Integração Migrações e Asilo).

Aker nasceu no Sudão do Sul, país localizado no nordeste de África e cujo nome significa terra dos homens negros. Viveu em várias cidades, porque o seu pai trabalhava numa companhia de águas e precisava mudar várias vezes. Cresceu num país em guerra. A República do Sudão tornou-se independente do Egipto em 1956 – mas iniciou logo um uma primeira guerra civil (1955 e 1972) entre o Norte (muçulmano) e o Sul (cristão e animista), que terminou com a autonomia do Sudão do Sul em 1972. No entanto, o conflito reacendeu-se em 1983, com a segunda guerra civil sudanesa, que durou até 2005 e que deu origem à independência do Sudão do Sul, em 2011. Foi neste contexto de guerra que Aker cresceu. Filha de um homem e de uma mulher de tribos locais Aker teve quinze irmãos. Dos dezasseis filhos da sua mãe, apenas seis sobreviveram aos conflitos. As pessoas, inclusive as crianças, quando ouviam os bombardeamentos fugiam, desorientadas. Andavam e, muitas vezes, perdiam-se dos pais. Foi assim que Aker, aos onze anos, com a sua gémea, foi apanhada num bombardeamento. A irmã acabou por morrer. Junto à fronteira com o Quénia os médicos sem fronteiras encontraram Aker e levaram-na para um campo de refugiados – onde ficou 2 anos, sem qualquer contacto com a família. Aí foi tratada dos ferimentos graves que sofreu. Ainda tem as marcas. Dois anos depois – já melhor, regressa a casa e, aos dezasseis anos, casa e tem três filhos. Aker é evangélica, mas a família mantém algumas tradições animistas. Com os filhos a crescerem traumatizados com a guerra, decide fugir do país com o marido. A pé, andam até à fronteira, que atravessam com a ajuda de máfias locais que dizem para caminharem durante horas apenas com uma garrafa de água. Sem saber o que os esperava, caminharam dias no deserto, completamente desorientados, expostos ao calor e às areias cortantes. Bebiam apenas um gole de água “para a garganta não colar”. Finalmente, foram encontrados pelos médicos sem fronteiras e levados para o Egipto – onde foram colocados a soro e tratados. Acabaram por ficar a viver cinco anos no Egipto, onde Aker aproveitou para tirar o curso de direito e onde teve o seu quarto filho. Em 2018, ao abrigo do programa de apoio aos refugiados, escolhe Coimbra como destino – onde acabou por ter o quinto filho e divorciar-se. As crianças estão integradas, são bons estudantes. Aker fala um português fluente. Durante três anos teve aulas intensivas, apenas parava em agosto. Estudou muito e fez amigos portugueses. Está integrada na comunidade, inclusive em projectos promovidos pela associação Há Baixa. Cozinha de forma exímia, borda e faz outros trabalhos artesanais com missangas. Conquistou a paz em Coimbra e nós, com a sua família, ganhámos uma riqueza cultural que nos devia orgulhar. Saibamos ter curiosidade pelo desconhecido e teremos boas surpresas. Iniciativas como as promovidas na Praça da Lusofonia são pontes essenciais entre as diferentes comunidades que povoam a cidade.

 

Ana Rajado


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