16 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

O Vira de Coimbra

23 de Julho 2021

O verão vai-se impondo tórrido e majestoso, convidando a proximidade com o Atlântico tal como de eleição para muitos os diversos rios que ilustram a seiva lusitana, águas e recantos de qualidade que levam à enchente de margens e areais. É também o estio sinónimo de festas, feiras e romarias, pois não há vila ou aldeia sem seu/sua padroeiro/a. Festejos que nestes lugares da Beira não deixam de escutar o gaiteiro, que como diz o povo, até “vem de véspera”. Tenhamos esperança que regressem esses costumes por enquanto adiados.

Distam os tempos em que da primavera até ao raiar do outono o povo rumava em costume e ânsia de folguedo às igrejas e ermidas, já fazendo do caminho e do terreiro parte desse culto sagrado, ora profano. Ansiavam a Rainha Santa em Santa Clara, o Espírito Santo nos Olivais, a Senhora da Nazaré em Ribeira de Frades, o Senhor da Serra em Semide, o Santo Amaro em Assafarge, entre tantas festividades nas redondezas e aquém Mondego, vindo o comboio levar o povo mais longe com o evoluir dos tempos.

Cumpridas as promessas não havia romeiro que não se jogasse à dança ou não se metesse em varejada pancadaria. Aos tocadores reunidos espontaneamente, logo se juntavam vozes muitas delas afamadas. Rara seria a moda sem mandador, figura presente e regente em despique quando mais de um havia. Entre tantas modas (letras e canções) haviam duas que o povo de Coimbra não dispensava, o Estalado e o seu Vira, levando-as a fazer parte do cancioneiro de localidades vizinhas, não fosse a Beira Litoral a região entre todas a mais híbrida em musicalidade (versos e melodias), como assim a definiu Armando Leça.

Numa cidade de tricanas e futricas, de estudantes e doutores sempre fora vulgar a ligação entre o erudito e o popular, no entanto num “confronto” temporal entre a sociedade académica e a sociedade futrica. O fado de Coimbra foi-se com os tempos divergindo da verdadeira “música tradicional coimbrã”. A Canção de Coimbra foi-se assim associando fortemente à academia, chegando até nós a forma como hoje se apresenta. Entre fados e guitarradas há temas ora mais originais ou mais populares. Grande parte do país terá apenas conhecido o “Vira de Coimbra” pelas vozes de Zeca Afonso ou Fernando Soares, esculpido pelos versos do povo e de António Nobre.

“Coimbra pra’ ser Coimbra,

Três coisa há de contar,

Guitarras tricanas lindas,

E um estudante a cantar.

(…)

Fui encher a bilha e trágo-a

Vazia como a levei,

Mondego que é da tua água?

Qu’é dos prantos que eu chorei.“

Perante estas quadras, belas e memoravelmente bem interpretadas, colocando o tema na sua autenticidade popular e etnográfica falemos do ancestral e verdadeiro (salvando várias versões) “Vira de Coimbra”. Remontando a 1830, perdeu-se com o tempo nos velhos cancioneiros e na voz do povo. Sujeito a várias variantes, como qualquer letra popular, dependendo do cariz e da terra do cantador. Sempre se viu dançado à voz do mandador, na sua musicologia própria e valsseada, melodia e letra singular entre os viras da região do Mondego, dançados e compassados pelo bater das chinelas e dos sapatos, pelo pulsar da alegria do povo. Terei talvez de lhe chamar o “Vira Velho de Coimbra”, apenas pelo seu desprezo, de quadras antigas acompanhadas pelos cordofones que tão bem caracterizam a tocata popular coimbrã, não digo única, mas perto disso. Cavaquinho, violão, Toeira, rabeca, bandolim, guitarra, acompanham as mais belas cantigas de terreiro, as modas das fogueiras, as serenatas futricas, todo um alargado reportório que faz parte da arte musical popular de Coimbra. As cordas são em Coimbra autênticos fios de alegria e de saudade, juntando-se a elas o harmónio, o clarinete, ou a gaita de beiços à medida que alargamos o raio geográfico para os seus arrabaldes.

Com quadras bem assentes no cancioneiro de Coimbra, este velho vira, talvez dos mais belos da região, não é decerto muito escutado. Recolhido por Armando Leça (1939/1940) nesta mesma cidade ficou para sempre gravado como uma pérola do cancioneiro (escutar arquivo online). O tempo dita a perda de toda esta herança oral e popular e serão já poucos a cantarolar estas quadras, entregues à “conservação folclórica”.

“Candeia de quatro luzes,

Que alumia os quatro cantos,

Mal empregada menina,

Enamorada de tantos.

Aqui neste canto canto,

Aqui neste recantinho,

Aqui mora a minha sogra,

A mãe do meu amorzinho.

(…)

Adeus areal do rio,

Não seu como tens areia,

A toda hora do dia,

meu coração te passeia.”


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