25 de Setembro de 2021 | Coimbra
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O que o Coronavírus veio mostrar a Coimbra

24 de Março 2020

Carlos Costa Almeida (*)

O mundo está a viver uma epidemia de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus. Tal como outras doenças virusais, incluindo a gripe, a covid-19 não tem tratamento especifico eficaz. É uma doença autolimitada, quer dizer, que desaparece por si, mas que evolui de modo diferente consoante os doentes, desde ser assintomática até ser letal, e o que há a fazer é manter o doente vivo até a doença se desvanecer e o doente se curar, ficando imunizado. A maior incidência patológica do novo coronavírus é na árvore respiratória, com estabelecimento de pneumonia, mas tem também eventuais repercussões noutros órgãos e sistemas, como os rins, podendo acabar numa falência orgânica múltipla que causa a morte. Por isso os casos mais graves têm absoluta necessidade de unidades de cuidados intensivos e suporte ventilatório, além do contributo de várias especialidades médicas. A taxa de mortalidade no nosso país anda à volta de 1%, mas a esmagadora maioria de doentes podem ser tratados em casa. Que é onde devem ser confinados todos os infectados que não necessitam de internamento, bem como os suspeitos de infecção e, numa tentativa máxima de atrasar a disseminação da doença, todos os que lá se puderem manter.

O maior problema que se coloca é a da eventual falta de meios para tratar os que disso necessitem em ambiente hospitalar, pela complexidade de meios a que isso obriga e pelo rápido crescimento do número de infectados doentes. Há, pois, que acautelar a disponibilidade desses meios, na quantidade do que for necessário. Com esse objectivo, no mundo inteiro se procurou aumentar o número de camas para esse tratamento: ou se construíram hospitais de raiz para isso, ou se instalaram hospitais de campanha, ou tendas, ou se reservaram clínicas particulares ou até hotéis, para ter camas suficientes para eventualmente albergarem doentes desta doença.

Em Coimbra foi decidido reservar o Hospital dos Covões para o tratamento hospitalar da covid-19. Assim, este Hospital foi considerado um Hospital de referência para o tratamento desta pandemia. Pois ainda bem que ele existe, e que Coimbra continua a ter dois Hospitais Gerais Centrais. Porque só assim o tratamento desta doença pode ser concentrado num deles. Num Hospital que tem todas as condições técnicas e tecnológicas que permitem esse tratamento, complexo que é. Num Hospital de que alguém em Coimbra ainda há bem pouco tempo dizia que necessitaria de milhões de euros de investimento para poder dar apoio a uma Maternidade como Hospital Geral… E agora, sem se gastar um cêntimo, de um mês para o outro, é um Hospital de Referência numa epidemia mundial! Com todos os meios que são necessários para tal…

Mas ainda bem que assim é. Porque se o Hospital dos Covões não existisse mais como Hospital Geral Central, e tivesse sido transformado numa outra coisa qualquer, para onde iriam agora estes doentes? Encher ainda mais o HUC? Ou talvez para uma tenda de campanha à entrada da sua Urgência, como aconteceu noutros hospitais?… Bom, e poderia ser assim porque entretanto não construíram a nova Maternidade nesse espaço, já que nesse caso nem lugar haveria para essa tenda!

É claro que é importante não espalhar estes doentes por vários hospitais, e por várias enfermarias. E se tem procurado mantê-los nos hospitais de referência, tanto quanto possível. aumentando, nestes, as camas disponíveis. Mas o que foi feito em Coimbra é que se esvaziou um Hospital inteiro, com 96 % das camas utilizadas ocupadas, retirando de lá todos os doentes que tinha, mandados para casa ou transferidos de hospital, para ter camas vagas para os doentes de covid-19.

E a Urgência fica apenas para esses doentes, sendo que os que foram entretanto tratados no Hospital e são lá seguidos, terão de se dirigir a procurar ajuda, inclusivamente urgente, noutro local, ainda por cima com as restrições agora exigidas. Não houve a decisão de abrir as muitas camas (mais de cem) que continuam fechadas no Hospital dos Covões. Nem nesta emergência! Elas mantêm-se encerradas, inúteis, e nem a necessidade óbvia de, tal como em todo o mundo se fez, aumentar recursos para uma doença nova que se apresentou de repente em números galopantes, as levou a ser de novo abertas. E, daí, a acumulação ainda maior de doentes no HUC vai ter as suas consequências nefastas.

Se é verdade que a procura pelos doentes agora é menor, pelo confinamento em casa e pela redução de acidentes rodoviários pelo muito menor volume de trânsito, é verdade também que todas as outras doenças não desapareceram, muitas delas muito mais mortais que a covid-19, e cujo diagnóstico e tratamento tardios serão o factor determinante do êxito letal dos doentes. Sem repercussão nos noticiários, admite-se…

Em conclusão, o Hospital dos Covões mostra-se, mais uma vez, como uma absoluta necessidade para Coimbra enquanto Hospital Geral Central. Mas mesmo tendo de se reconhecer isso, mantêm-se limitado, truncado, querendo-se que funcione sempre e apenas como uma ajuda, absolutamente indispensável, vital, ao que se insiste em que seja o único Hospital Geral Central de Coimbra, o HUC, assoberbado e esgotado de trabalho que este esteja.

Foi isto que o novo coronavirus veio mostrar a Coimbra. Espera-se que Coimbra veja. E se lembre de que já foi Capital da Saúde, quando tinha dois Hospitais Gerais Centrais. E que ainda os tem…

O Hospital dos Covões, hospital referência

O Hospital de referência para os doentes graves com Covid-19 é o Hospital dos Covões. E ainda há pouco tempo alguém no CHUC dizia que ele não podia dar apoio a uma maternidade… As voltas que o mundo dá!! Em tão pouco tempo!!

Mas a verdade é que todos os outros doentes do Hospital foram mandados embora. Vieram – ou virão – doentes de covid-19 ocupar-lhes os lugares. E para onde foram esses doentes? Não precisam de tratamento? E os tantos que esperam para ser internado e tratados?? Pois, é uma emergência, entende-se, têm de se escolher os doentes que são tratados… Errado! Nesta emergência as enfermarias do Hospital que estavam fechadas e vazias continuam a estar, as mais de 100 camas que estão lá desocupadas continuam a estar! As que estavam ao serviço, com 96% de ocupação, são as que continuam. Apenas! Com as outras enfermarias fechadas!

Já se viu que o Hospital está lá, para o que for preciso, para os doentes graves, com a tecnologia necessária, como referência! Que tem o que é necessário. Como sempre teve. Mas está reduzido na sua capacidade, limitado, truncado. Intencionalmente. E nem numa emergência ele é libertado dessa condenação!!

Só há doentes com covid-19?? As outras doenças que enchem os hospitais tiraram férias?? E falo das doenças graves. E dos doentes que lá foram tratados e precisam de apoio continuado? Ou urgente? Não há outros doentes? Esses são despejados porque o Hospital continua refém de quem manda no CHUC e quer só um Hospital em Coimbra?? O outro está lá, capaz, quieto e manietado, e só se recorre a ele em apertos e para as faltas?? ?? E os doentes vão aguardando, em listas de espera cada vez maiores?!

A população de Coimbra e da zona centro não merece que as instalações e capacidade do Hospital dos Covões sejam todas aproveitadas?!

Perante o silêncio que se ouve, não deve mesmo merecer!

Punham uma tenda grande à entrada das Urgências do HUC?… Mas e se já lá estivesse a Maternidade?! Nem espaço para a tenda haveria…

Com certeza não vale a pena discutir esse assunto consigo, como não valerá a pena discutirmos pormenores dum,processo civil ou criminal. Não o vou fazer. Só lhe vou dizer o seguinte, porque vejo o seu entusiasmo pelo assunto (!), e fico por aqui:
1. A supressão duma epidemia deve começar o mais cedo possível, de preferência sem infectados ainda ou com muito poucos, mas só se se esperar entretanto uma vacina. Doutro modo será impossível manter todas as pessoas totalmente afastadas do vírus indefinidamente. Quando finalmente tiverem de sair, sem estar imunizadas, serão infectadas.
2. A mitigação duma epidemia, pelo contrário, não deve começar cedo demais na sua evolução, porque se baseia na existência de casos infectados e já imunizados. Que irão aumentar a partir desse número, de modo a que quando se levantarem os cuidados a ter não haja um recrudescimento da epidemia. Sem ter de manter as pessoas escondidas em casa mais do que o necessário. Se se começarem as medidas (confinamento, etc.) demasiado cedo, não chegará a haver o número de infectados imunizados que confira a imunização de grupo que se pretende, e o período de confinamento terá de continuar muito mais tempo. Há, por isso, que conseguir um equilíbrio entre o número de doentes – nomeadamente as mortes – o menor possível, para um período de confinamento o menos longo possível. Não é de qualquer maneira. O que inclui não ser o mais cedo possível….

E esse período, e esse número de casos, têm a ver directamente com a capacidade de cada sistema de saúde. Por isso as regras de confinamento foram estas, e as do Reino Unido mudaram para ser adequadas à sua capacidade de tratamento. Quer dizer, para poderem controlar o número de casos a necessitarem de internamento e cuidados intensivos.
Finalmente, os assintomáticos devem ficar em casa. E a esmagadora maioria dos doentes tratam-se em casa. Apenas 4,4% dos doentes precisam de internamento. E, destes, apenas 30% de cuidados intensivos.

E fico por aqui. Não sem lembrar, a propósito, e como já lhe disse, que as questões de Saúde devem ser entregues aos médicos. Os administradores, gestores, advogados, o que for, que queiram trabalhar na área só se devem aconselhar com eles. E por ser um assunto que obviamente interessa a todos, não é por isso que a opinião de qualquer um fora dele conta. Nem que seja para atacar um Governo…

(*) Prof. Doutor da Faculdade de Medicina de Coimbra, Centro Cirúrgico de Coimbra e ex-Director de Serviço de Cirurgia do Hospital Geral-CHUC


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