13 de Maio de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

O pão que o diabo amassou

13 de Dezembro 2019

Todos conhecem a tia Maria de Jesus por tia Maria Caveira, o apelido do pai que não averbaram no seu registo, ao invés do que fizeram com os irmãos. É uma cativante mulher de 91 anos, com quem todos os domingos nos cruzamos no Mercado da Tocha a vender na “carreira” os excedentes agrícolas que ela própria cultiva nas suas pequenas leiras ali pelas Berlengas. De luto carregado, a sua voz e a expressividade do seu rosto, tapado pelo lenço preto que o envolve, deixam adivinhar o sofrimento incontido de uma morte que se atravessou na sua vida. Figura emblemática destas areias, a tia Maria confessa que foi e há-de continuar a ser o trabalho a dar-lhe forças para resistir aos desgostos.

O seu percurso é um romance, um romance que começou logo em pequena, quando foi mandada à escola e tirou a 3.ª classe, situação que à época era rara para as raparigas. Muitas apenas aprendiam a fazer o nome, pois dizia-se que, se soubessem ler e escrever, depois mandavam cartas aos rapazes. – Isso era uma desculpa dos pais, conta ela, pois assim que as tiravam, logo iam morar a guardar os outros meninos. O seu lamento, no entanto, não fica por aqui e é da sua boca a expressão de que as Gândaras de antigamente eram muito miseráveis. Lembra que mal saiu da escola foi logo para a sementeira, arremate e limpeza da floresta, um trabalho tão duro para uma menina!… A sua vida, porém, tomou outro rumo ao casar-se aos 18 anos, logo seguido da vinda de dois filhos e uma labuta ao lado do seu homem, com o fim de dar àqueles, através dos estudos, um futuro que os dignificasse. Mas para isso era preciso dinheiro, e não havia outra forma de o arranjar senão com as mãos calejadas e o suor no rosto. E aqueles pais não hesitaram perante os sacrifícios a que eram obrigados e foram em frente. O marido na lida das suas terras e à jorna, e ela, de cesta à cabeça, a vender pelas portas as suas batatas, couves, laranjas, feijões, ramos de salsa e de flores…, os mimos que ia cultivando em cada ocasião, para que as senhoras os adquirissem por novidade. E isto, dos 18 anos até à altura em que deixou de ter forças para continuar a carregar a cesta à cabeça. A partir daí passou a empurrar um carro de mão, nada lhe faltando hoje, como diz, mas faltando-lhe tudo, ao referir-se a quem partiu. Sempre com o Credo na boca, e sempre a pedir a Deus que a leve, pois não tem alegria para continuar por cá, a tia Maria Caveira evoca sempre a vontade do Criador. Porém, esta espera, onde estão latentes as dores da sua alma, deve, segundo ela, ser sufragada pelo trabalho a que o seu corpo se habituou.


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