24 de Outubro de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

O extermínio dos pardais

22 de Janeiro 2021

O registo que hoje aqui deixo vem no seguimento do que expus no meu último texto face ao interagir da população da Praia da Tocha na aproximação e partilha com os animais. Apresentava eu ali o caso dos “meus” pardais e daquela raposa que todas as noites sai da floresta e quase vem comer à mão das pessoas. Quis o acaso que, entretanto, tivesse acesso ao livro de José Jorge Letria intitulado Um Mundo Aflito, onde se conjuga a escrita com a fotografia da autoria de Inácio Ludgero e prefácio de Pedro Abrunhosa, do qual subscrevo: “Leia-se este livro como um Poema…”. Pelo contraditório, retive da sua análise o macabro episódio que remonta a 1958 quando Mao Tsé-Tung, implementando a reforma agrária e a coletivização da terra na China, determinou o extermínio de ratos, moscas, mosquitos e pardais, as Quatro Pragas, alegando que estas espécies “roubavam ao povo o fruto do seu trabalho”. As formas bizarras utilizadas para eliminar os pardais iam desde o bater de tachos, panelas, frigideiras e outros utensílios ruidosos com que os assustavam, pelo que estes, não podendo pousar, caíam exaustos. Isto para já não falar na destruição de milhares de ninhos, uso de fisgas, armadilhas e espaços de tiro que foram criados para esse fim, tudo contribuindo para o desaparecimento de mais de dois biliões destas aves. Ignoravam os dirigentes que a sua alimentação assentava na proporção de três partes de insetos e uma de grãos.

Perante tal extermínio, e não tendo agora predadores, as mais variadas espécies de insetos atacaram as colheitas dizimando-as. No início da década de sessenta e perante tal adversidade que resultou na morte pela fome de milhões de chineses, Mao-Tsé-Tung, numa tentativa de dar a volta à crise, importa agora pardais da União Soviética. Tarde demais, pois o desequilíbrio ecológico era uma realidade. Este caso anacrónico de há sessenta anos que a História relata, não está tão longe daqueles outros que têm acontecido entre nós. Recordo aquele abaixo-assinado de uns tantos produtores de morangos que há anos acusavam os melros de lhes comerem os frutos, tendo aquelas aves passado a ser consideradas uma espécie cinegética e sido autorizado o seu abate, por caçador e por dia, até quarenta exemplares. Foi preciso um movimento quase nacional para a revogação imediata dessa determinação a que se juntaram organizações para a defesa da natureza. Também o episódio recentemente ocorrido numa coutada turística em Torre Bela, onde selvaticamente foram dizimados mais de 540 animais, não está assim tão longe do que fez Mao-Tsé-Tung!


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