13 de Maio de 2021 | Coimbra
PUBLICIDADE

ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

O Despertar firme, sempre

5 de Março 2021

O Despertar completou 104 anos no dia 2 de março. Ao longo de todo este tempo, quantos sacrifícios não se houveram de fazer para manter firme, sempre firme, este órgão de informação, com história, da cidade de Coimbra. Houve períodos da sua vida de exuberantes situações; outros em que houve de ultrapassar penosas conjunturas. Com este ou aquele, esta ou aquela, na sua Direção, e à proa, sempre conseguiu o velho O Despertar navegar à tona das marés bravas, remos bem seguros por gente de temperamento forte que não se deixaram derrotar, apesar das circunstâncias. Aportaram ao areal com o barco carregado de notícias e de artigos que desde sempre mantinham informados os seus fieis leitores.

Hoje atravessa a imprensa regional, tão importante para a vida da comunidade onde se insere, um momento de mágoa acrescida. Os poderes locais raramente se interessam pela sua subsistência, embora se sirvam dele, nos momentos cruciais, para anunciar os seus êxitos «cativadores» de votos dos eleitores, ou para promover o «curricula» de algum Boy que tenta alcandorar-se a lugares de topo nos seus partidos políticos. Nessas alturas as promessas brotam. Depois do ato consumado espalham-se migalhas e, excecionalmente, algumas refeições take-away.

Essas personagens sabem que atravessamos momentos de transição radicais resultantes da substituição da informação em papel pela imprensa eletrónica. Quem, por prazer, quiser ler o seu jornal fora do ecrã do computador, tablet ou telemóvel, terá dificuldade em fazê-lo.

Os «quiosques» ou vãos de escada onde se vendiam sumiram. Há terras do interior mais periférico deste país, onde já não existe um local onde comprar um diário ou um semanário. A minha experiência assim o diz. Coimbra para lá caminha, a passos largos…

Apesar de saber lidar, razoavelmente, com a aparelhagem eletrónica corrente e aí poder encontrar os canais informativos privilegiados, nada substitui o meu insuperável gosto de olhar numa tabacaria os títulos dos jornais, ler o jornal num café, comprar o meu diário favorito. Gosto de cheirar o papel e senti-lo pelo tacto, como se costuma dizer. E, perante este desastre devastador do nosso património que fazem os ditos responsáveis pela cultura local?

Nada ou quase nada.

Muitos ignoram que o O Despertar é património centenário da cidade de Coimbra. E pergunta-se: sabem que a cultura é um valor?

Em Confissões, Agostinho de Hipona identifica três tempos: um presente das coisas passadas, um presente das coisas presentes, e um presente das coisas futuras. O presente das coisas passadas é a memória; o presente das coisas presentes é a vida, e o presente das coisas futuras é a espera. É a partir deste entendimento sábio que uma conceção atual de património de cultura deve abranger a compreensão dos «três presentes», de modo que a memória seja revivida e respeitada, assumindo a relação estabelecida entre as pessoas, a sociedade, a herança que recebem e que projectam no futuro. O Despertar prezou tudo isso ao longo da sua vida.

Conhece-se o passado rico e longo de O Despertar também representativo do passado histórico de Coimbra e, consequentemente, das suas memórias?

Saibam os doutos políticos desta terra cuidar do recebido, para enriquecimento do património da cidade que já foi, ainda a tempo de voltar a sê-lo. É só preciso não deixar esse acervo ao abandono, – da nobre Universidade, aos jornais regionais, os informantes do povo. E O Despertar possui um acervo invejável e secular. Parafraseando Guilherme d`Oliveira Martins, é património cultural, realidade viva. Apesar dos contratempos, na realidade, este património ainda vive e não morreu. Deve-se a sua vida à «carolice» de uns tantos e ao trabalho insano da sua jovem diretora Zilda Monteiro, a quem todos os que prezam O Despertar devem estar gratos. A minha vénia estimada Zilda.

Até para o ano, na celebração dos 105 anos. Melhor e mais desafogada vida. Parabéns.


  • Diretora: Zilda Monteiro

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM