De 30 de agosto a 8 de setembro, Montemor-o-Velho volta a ser palco de uma das celebrações mais antigas e emblemáticas da região Centro: a Feira do Ano e as Festas Concelhias. São dez dias de concertos, gastronomia, tasquinhas e reencontros, onde a modernidade convive com uma tradição documentada há quase seis séculos.
Mais do que um evento cultural, a Feira do Ano afirma-se como momento de identidade coletiva. Entre a devoção medieval e a festa popular, a vila renova uma herança que continua a mobilizar gerações, atraindo milhares de visitantes e projetando Montemor-o-Velho como capital regional da tradição.
Uma feira com raízes medievais
A Feira do Ano não nasceu por acaso. A sua existência está documentada pelo menos desde 1426, quando surge em registos da Chancelaria de D. João I, com intervenção de D. Pedro, Duque de Coimbra. Em 5 de Julho de 1453, já no reinado de D. Afonso V, foi passada uma carta régia autorizando a mudança da data da feira, acto preservado na Leitura Nova do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Estes diplomas confirmam a longevidade do certame, cuja origem se liga à devoção a Nossa Senhora de Campos.
Durante séculos, Montemor-o-Velho recebeu feirantes e visitantes atraídos pelo comércio, pela festa e pela devoção. Hoje, essa herança histórica cruza-se com a vitalidade contemporânea de um programa cultural diversificado.
A vila em festa
O Largo da Feira transforma-se em centro nevrálgico. As ruas enchem-se de movimento, os aromas das tasquinhas misturam-se com a doçaria conventual que fez a fama da região, e as luzes da feira popular brilham no vale do Mondego sob a vigilância imponente do castelo medieval.
Entre arroz de lampreia, enguia frita e sobremesas conventuais, as tasquinhas dividem espaço com uma nova área de street food. O município reforça ainda o compromisso ambiental: copos reutilizáveis, pontos de recolha selectiva, sensibilização para a compostagem e distribuição de compostores.
Origens da Feira do Ano: memória e registos
A história da Feira do Ano está documentada em duas fases distintas:
A tradição local atribui a “oficialização” ao Infante D. Pedro em 1453, mas a documentação prova que, nessa data, o responsável foi D. Afonso V — o Infante tinha falecido quatro anos antes, na batalha de Alfarrobeira (1449).
Historiadores como Mário José da Costa Silva (As feiras medievais em Montemor-o-Velho, 2007) e Ana Maria Rodrigues (As feiras e mercados em Portugal na Idade Média, 1995) distinguem claramente estes dois momentos.
Assim, a Feira do Ano é simultaneamente um legado medieval confirmado por documentos régios e uma tradição popular enraizada na memória coletiva, onde a figura de D. Pedro permanece como símbolo fundador, apesar da cronologia histórica precisar outra verdade.