10 de Maio de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO CASTELO BRANCO

Estórias de rapazes

1 de Abril 2021

O Dia de Ramos, tal como em tempos era festejado na minha aldeia, assumia um significado especial quando se viam as mulheres com ramos de alecrim para serem benzidos e afastarem as trovoadas, enquanto os rapazes tinham uma participação ativa na celebração ao evidenciarem a sua força, mal chegava ao adro uma camioneta carregada de palmas, adquiridas pela comissão do culto que ali as colocava à sua disposição. Cada um agarrava num molho, enquanto as mulheres eram arredadas, na altura em que aqueles se dirigiam para o altar-mor, o lugar dos homens. Ali permaneciam sem as poisar até ao fim da missa e da bênção do ramo e dessa maneira integravam a procissão à vontade e sem alinhamentos.

As raparigas gostavam de os ver naqueles propósitos sem darem confiança ao padre, diziam, pois o momento era deles, e elogiavam-nos por conseguirem levar tão grandes braçados.

Também a partir dessa altura as Cruzes e os Santos em todas as igrejas eram tapados com panos roxos em sinal de luto e sofrimento, como forma de não serem desviadas as atenções e distrair os fiéis ao contemplarem-nos, sendo apenas destapados na missa da Ressurreição. Por sua vez, os sinos eram calados desde 5ª Feira Santa até Sábado de Aleluia. A justificação sabia-a a tia Zulmira, costureira da igreja, que “por amor de Deus” nos dava catequese em sua casa. Insistia que o silêncio naqueles dias devia ser triste e piedoso e persuadia-nos a não dizermos asneiras, nem a roubar fruta, nem irmos aos ninhos, nem mentirmos, nem espreitarmos as pernas às cachopas e nem fazermos danações ou outros pecados, pois Nosso Senhor via tudo. Tais coisas intrigavam particularmente o Toino Camurro que era meio atravessado e, perante tanta proibição sempre perguntava à catequista: – Atão que raio é que eu posso fazer? Estes jeitos da mulher não eram por ali estranhos, ao saber-se da sua beatice, comentando-se a cada passo o facto de ela ter feito a própria mortalha e de a ter vestido frente ao espelho do guarda-vestidos para saber qual seria a sua figura ao apresentar-se perante Deus, quando fosse chamada a contas. De grande alegria era a missa de Sábado de Aleluia, pois mal o padre dizia “Glória… “ todos nós, garotos, com as campainhas que tínhamos pedido ao sacristão, corríamos a tocá-las pela coxia adiante, dávamos a volta aos cruzeiros e entrávamos de novo na igreja a badalar. No dia seguinte os sinos voltavam a tocar para anunciarem a visita Pascal, enquanto o chão se cobria de rosmaninho e flores que, ao serem pisados, deixavam o inconfundível aroma à Páscoa. A festa tinha regressado à aldeia.


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