16 de Março de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Companheiro Da Minha Última Réstia de Vida

27 de Fevereiro 2026

Faz mais um ano O Despertar. O Jornal centenário de Coimbra, defensor dos conimbricenses, principalmente dos mais desafortunados.

Pensando bem, resolvi nesta data afortunada para o nosso Jornal, falar das cheias que causaram desassossego e prejuízos a Coimbra e arrabaldes. O Jornal que, ao longo dos tempos, sempre privilegiou as suas crónicas às coisas importantes, esteve e está presente.

A ascensão desmedida das águas do Mondego acabariam por fazer eclodir diques, cortar a principal autoestrada do país, após aluimento; a inundação de casas e empresas, o isolamento da povoação de Ereira, a imersão de monumentos queridos da cidade, o alagamento da parte baixa de Santa Clara. Se como tudo aponta, o pior já lá vai, as próximas semanas serão ainda de muitos afazeres e desapontamentos.

Não pensem os conimbricenses mais jovens que esta cheia do Mondego, foi única e das mais perigosas. Muitas outras houve, bem agressivas, que fizeram chegar ao dito Largo de Sansão grandes enxurradas, causando graves danos aos comerciantes e habitantes da zona. Chegou-se a andar de barco nesse largo e nas ruas da baixinha

As cheias do Mondego, por diversos motivos, sempre foram relativamente rápidas, com demoras entre a iniciação de cheia e o pique do caudal da ordem das poucas horas, sendo deste modo perigosas devido ao aumento brusco do nível de escoamento.

As cheias no rio Mondego aconteceram desde, pelo menos, o século XIV, lesando a vida de Coimbra e causando prejuízos inauditos. Registam –se as cheias dos anos 1331, 1788, 1821, 1842, 1852, 1860, 1872, 1900, 1915, 1962, 1969 e 1979, fora outras dos séculos XX e XXI. Muitas delas, dada a minha provecta idade, tive oportunidade de acompanhar.

“Numa frequência empírica pode verificar-se que as cheias designadas como importantes tiveram um período de retorno de 50 anos. Pode ainda verificar-se que nos dois últimos séculos, com a mesma análise empírica, as cheias importantes têm um período de retorno de 20 anos.” (Leia-se Wikipédia)

 

Mondego Meu, Mondego Nosso

Ó Mondego, Ó Mondego,

P´ró que te deu meu amigo;

Eu que estou sempre contigo,

Desta vez estou zangado,

Por esta enorme cheia, descorçoado,

P´la provação que deste à tua gente,

Ó rio foste muito pouco prudente.

Aldeias isoladas,

Estradas cortadas,

Bens destruídos,

Aluimentos sentidos,

Povoações esventradas,

Gentes desoladas.

Mas ó rio, tudo isto é culpa tua?

Não: é de quem descuida a tua manutenção;

É da política e dos políticos que longe estão,

Que prometem muito e pouco fazem.

Sabes, estão longe, vivem na miragem

 

Nalgumas das cheias que já teve Coimbra, lá esteve o nosso Jornal, Companheiro Da Minha Última Réstia de Vida.

PARABÉNS P´RÓ O DESPERTAR.

 


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