Uma decisão histórica e horrível para a cultura de Coimbra e Região. É assim que classifico a notícia que recebemos, no final da semana passada, relativamente, à exclusão da candidatura a Capital Europeia da Cultura, 2027.
Depois de anos de preparação, de investimento humano e financeiro, de expectativas crescentes num desfecho positivo, não lográmos sequer integrar a short list, sendo ultrapassados por Ponta Delgada, Aveiro, Braga e Évora – cidades que viram os seus projetos reconhecidos e merecedores de passarem à fase decisiva.
Não devemos julgar quem tudo fez para que Coimbra atingisse um desiderato importantíssimo para a afirmação cultural no plano internacional. Fui, a este propósito, sondado sobre a questão e transmiti desde o primeiro instante o que pensava sobre o processo: a cultura não começa nem termina nos Paços da Escola, nem em quem prestigia esse universo escolar, não basta sermos património da Unesco, ou assentar a lógica de candidatura em 8 séculos de existência, numa dinâmica muito material, mas pouco imaterial – como me parece que foi uma das lacunas cometidas.
Quem esteve a comandar o processo, com o ventre na cabeça do touro, e que foi, politicamente, reconduzido para levar a bom porto a candidatura, terá, certamente, muito a dizer sobre a questão. Eu pouco sei sobre esse mundo, visível, umas vezes, de bastidores, noutras. Como concidadão gostaria que prestassem contas públicas, e se não limitassem a dizer que o trabalho é para continuar, ou que há mais vida para lá dos resultados sofríveis.
Coimbra merece saber todas as explicações de um processo que passou ao lado da própria cidade, com ausência de medidas concretas de terreno, de aproximação aos players culturais regionais. Tenho quase a certeza de que a maioria dos comuns cidadãos não compreendeu o que foi sendo feito, nem tão pouco por que se fez. Mas sabem das avenças, dos dinheiros públicos utilizados em função de objetivos não concretizados, dos rostos das principais figuras que ficam para sempre colados, talvez injustamente, a um desfecho triste, mas real.
Devolver à cultura parte da verba investida ou da que se previa investir, seria medida bem vista pela população, justa, transparente, tendo em vista o reinvestimento em projetos sociais e culturais de relevância para as comunidades, para assim minorar os efeitos da fogueira cultural onde, tradicionalmente, os pequenos quase sempre são sacrificados em prol dos graúdos. Bem sei que é uma utopia pedir tanto, mas a honra, a dignidade e a coragem não têm preço.
Capitulámos a pique. Não soubemos integrar todos num processo geral que só teria a ganhar com o alargamento de parceiros, menos politizado, mais puro e original. Na verdade, nada de novo no horizonte: ficámos pendurados e perdidos na encruzilhada entre um suposto elitismo cultural e um mundo não erudito que teimamos em renegar.