A chanfana, um dos pratos mais emblemáticos do interior do distrito de Coimbra, ganha protagonismo em festivais gastronómicos que prometem atrair milhares de apreciadores nos próximos meses.
Vila Nova de Poiares abriu o calendário com 11 dias de celebração dedicados à iguaria, que segundo a organização “correu muito bem”. Mesmo com o mau tempo a fazer-se presente nos últimos dias isso não impediu que a edição deste ano fosse um sucesso. Os restaurantes presentes marcaram a sua posição e apresentaram em peso esta iguaria que levou milhares de pessoas até à região.
Depois de Poiares segue-se Lousã, Penela e Miranda do Corvo, onde a tradição da cabra assada em caçoilas de barro preto com vinho tinto será celebrada por todos os que apreciam este prato.
Embora a fama da chanfana continue a crescer, a falta de cabras e pastores na região lança um alerta sobre a sustentabilidade desta tradição culinária. “O território é procurado pela chanfana, mas onde está a matéria-prima? Onde estão os pastores e as cabras?”, questiona João Carlos Feteira, presidente da Junta de Freguesia de São Miguel de Poiares.
Trabalho de sacrifício, mas de grande paixão
Para enfrentar este desafio, Vila Nova de Poiares conta com o projeto Capril da Serra, lançado em 2019, numa parceria entre junta, município e comunidade de baldios, e que conta hoje com um efetivo de 120 cabras.
Rui Feteira, um dos pastores, trocou a vida de motorista pelo pastoreio. Entre o trabalho árduo e o amor pelos animais, destaca que “sem paixão, não vale a pena”. Armando Santos, outro pastor da região, confirma a dificuldade da profissão. “Não há feriados ou dias santos. É uma vida de sacrifícios”.
Dados indicam que a eficácia das cabras na região Centro caiu 42% entre 2000 e 2023, um reflexo das dificuldades financeiras e das exigências rigorosas sanitárias. Especialistas, como Nuno Carolino, apontam que os contratos pelos serviços ambientais das cabras, como a limpeza de matos, poderiam estimular novos pastores e estabilizar a profissão.
Nos restaurantes da região, a chanfana continua a conquistar corações e paladares. José Silva, proprietário do restaurante Ferrador em Miranda do Corvo, lembra que, antigamente, o prato era pouco conhecido fora da região. Hoje, há autocarros lotados que chegam semanalmente para saborear a iguaria. Entretanto, a carne usada já não vem das serras locais. “A matéria-prima é boa, mas vem de fora. Não há produção suficiente aqui”, afirma.
Madalena Carrito, confrade-mor da Confraria da Chanfana, reforça a necessidade de incentivos. “Para proteger a chanfana, precisamos de apoiar quem produz as cabras. Caso contrário, corremos o risco de perder isso”.