25 de Setembro de 2021 | Coimbra
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Café Santa Cruz: quase um século de histórias para contar

28 de Fevereiro 2020

Igreja de Santa Cruz feita de pedra morena, dentro de ti vão chorar dois olhos que me dão pena.” A quadra é de um dos mais conhecidos fados de Coimbra e faz menção à igreja que está intimamente ligada, a nível histórico e arquitetónico, ao café com o mesmo nome. No centro da Praça 8 de Maio, em plena Baixa de Coimbra, erguem-se, como que abraçados ao longo dos tempos, os dois emblemáticos edifícios numa arquitetura sublime, requintada, magistral.

Já tem barbas brancas, próprias dos seus 97 anos de idade, mas não é por isso que se deixa intimidar por novos desafios. É a forma como cada um os aceita e enfrenta, aliás, que distingue o comerciante daqueles que não o são verdadeiramente. É, pelo menos, esta a convicção de Vítor Marques, um dos quatro sócio-gerentes do reconhecido Café Santa Cruz.

Sentados à mesa, relembramos a história de um dos cafés mais antigos de Portugal e, porventura um dos poucos que se mantém em funcionamento de forma quase ininterrupta. Foi concebido como café-restaurante (após ter sido reprovado o projeto, em 1921, para ser uma cervejaria) no rescaldo da I Guerra Mundial e abriu ao público a 8 de maio de 1923, graças a três mentores: Mário Pais, Adriano Lucas e Adriano da Cunha Lucas. A data foi escolhida de forma criteriosa: é na Praça 8 de Maio que se localiza o Café Santa Cruz (denominada Largo de Sansão até ao ano de 1874). Mas a história é mais antiga ainda. Remonta ao século XVI, mais propriamente a 1530, ano em que foi construído o espaço, pelo arquiteto Diogo de Castilho, numa altura em que o Mosteiro de Santa Cruz sofreu uma profunda intervenção. Esta igreja foi então construída para que as pessoas pudessem frequentá-la e a Igreja Santa Cruz ficasse afeta exclusivamente aos monges da ordem de Santo Agostinho, os Crúzios. Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a igreja do velho mosteiro assume de novo a função de igreja paroquial e a de S. João Baptista de Santa Cruz ficou ao cuidado do Estado. Após a sua dessacralização foi servindo outras funções: armazém de ferragens, esquadra de polícia, armazém de canalizações, casa funerária, estação de bombeiros, entre outras.

Uma referência incontornável da cidade

Desde que nasceu que é uma referência da região centro e a nível nacional, até porque na década de 20 do século XX “passava aqui a estrada nacional n.º 1 o que trazia muitas pessoas e, além disso, diz-se que o atendimento sempre foi muito bom e o rigor na forma de servir e até de vestir dos funcionários era distinto”, conta Vítor Marques. Após a revolução de 1974 o seu pai, Alexandre Marques, até então emigrado em Moçambique, resolve ficar com o café, tendo fechado o serviço de restaurante pouco depois por não ser rentável. “Eu diria que, não sendo humilde, se nós estamos aqui hoje é graças ao meu pai… alguém pegar no café nessa altura, com essas alterações sociais tão fortes, não deve ter sido nada fácil. As histórias que hoje ouvimos de outras pessoas que pegaram em empresas nessa altura dão para perceber isso. Mais difícil do que gerir a economia é gerir as pessoas e os problemas sociais e ele conseguiu dar a volta a isso. Aliás, muitas das pessoas que estavam cá na fase da revolução mantiveram-se e ficaram até à sua reforma. Foram, certamente, muitas horas de trabalho para superar todos os problemas inerentes à época”, conclui.

Em 2002, já constituída uma sociedade entre Marcelino Pestana, Arnaldo Gonçalves e Alexandre Marques, o espaço é sujeito a obras (intervenções nas casa de banho, canalizações, balcão…), que duraram cerca de dois meses, ficando com o aspeto que hoje tem. Foi a única vez que fechou portas. Vítor Marques recorda os vários períodos conturbados, pelos quais o Café Santa Cruz passou ao longo da sua existência: “período pós-guerra, segunda guerra mundial, a revolução, a crise de 70 e até mesmo o período em que foram feitas obras na praça que dificultavam o acesso das pessoas ao café”. Com as obras, por decisão dos arquitetos responsáveis (Luísa Marques e Miguel Pedreiro), abriu-se uma das fachadas com o intuito de dedicar essa parte a eventos culturais e até mesmo “como forma de abrir o café à cidade”. Desde então é lá que se realizam espetáculos, conferências, tertúlias e as noites de fado do Café Santa Cruz.

A sazonalidade, os desafios e a imaginação para os enfrentar

Com o afastamento dos sócios por questões de saúde, é a vez dos filhos deitarem mãos à obra e não deixarem morrer aquele que é mais do que um simples café na cidade dos estudantes. No início do novo milénio, Nuno Miranda, Paulo Gonçalves, José Cruz e Vítor Marques tornam-se percursores na história deste espaço. A sazonalidade é o maior problema neste ramo. Mas nada mais é que um desafio. E aos desafios o que temos de fazer? Aceitar o repto e enfrentá-los. “O que é um comerciante? Quem se diz comerciante tem que encarar as coisas menos boas como um desafio e tentar superá-los. As pessoas que se intitulam dessa forma têm de saber o que não está a correr bem e o que se pode fazer para melhorar. A concorrência e a sazonalidade são desafios que nos são e serão sempre colocados estando no contexto do centro histórico da cidade”.

O início desta nova sociedade foi, por isso, marcado por várias experiências. Em 2002 o espaço começou a acolher exposições. Nos anos seguintes criou-se uma base de dados para a divulgação dos eventos, depois surgiu o site e a página de facebook e um maior contacto com os órgãos de comunicação social. Em 2007 e 2008 foi feito um grande investimento em equipamento de som e, também graças a isso, um ano depois de iniciarem as noites de fado de forma mais regular, editam o primeiro CD deste estilo musical português. Depois disso, há sempre inovações mas, reitera Vítor Marques, não há pressa em que elas aconteçam “porque são eventos transversais àquela que é a atividade principal de um café”. Já publicaram três livros e o quarto está previsto para este ano. Todos com o nome do Café Santa Cruz. O doce “Crúzio” foi lançado em 2012 e ganhou, em 2019, pelo quarto ano consecutivo, uma medalha de Ouro no 8.º Concurso Nacional de Doçaria Rica Tradicional Portuguesa. No mesmo ano o Café Santa Cruz ganhou também, pelo segundo ano consecutivo, o Prémio Cinco Estrelas Regiões na categoria “Cafés Históricos” no distrito de Coimbra. Mais que pelos prémios alcançados, o reconhecimento vai aparecendo. Pelos clientes que, há mais de 50 anos, bebem o seu café, quase sempre na mesma mesa, ou pelos novos projetos que vão surgindo. Ou até, pela nova série de televisão, que irá estrear brevemente, num conhecido canal de televisão privado, onde existem algumas cenas gravadas no Café Santa Cruz. Chegam agora, aliás, para filmar. E, mais uma vez, o café transforma-se. Hoje em estúdio de gravações. A provar, se dúvidas houvesse, que este é muito mais que um simples café.


Curiosidades

A construção do Café Santa Cruz é abobadada dividida agora em três tramos (enquanto igreja apenas dois). O arco cruzeiro marca a divisória para aquilo que teria sido outrora a capela-mor, também ela abobadada em forma estrelada. A iconografia utilizada, e ainda hoje visível, é variada, flor de lótus, o cordeiro, o sol, a lua, folhas de acanto, entre outras tipicamente cristãs. A fachada primitiva seria muito singela apenas com um portal com três pequenas aberturas na parte superior. Aquando da referida reforma de 1923, esta é bastante alterada e após acesa polémica fica com o aspecto actual adoptando um tom revivalista renascença, abrilhantado por um conjunto de vitrais de muito bom gosto. O interior agora revestido por espaldares de madeira, é também dos inícios do século XX.” [José João Cardoso; antigo cliente, já falecido]

O lançamento dos livros do Café Santa Cruz é sempre inserido nas semanas culturais da Universidade de Coimbra. O primeiro foi publicado em 2014, dedicado à apresentação da rota dos cafés históricos de Portugal. O segundo livro, de 2015, retrata uma exposição de fotografias com o espólio pessoal de várias pessoas, clientes do Café Santa Cruz e o terceiro, uma antologia, feita com a colaboração de cerca de 50 pessoas (pessoas dentro da área do turismo, património cultural, arquitetos, físicos, sociólogos antropólogos, filósofos, entre outros), publicada em 2017. O quarto será publicado em 2020 e vai refletir o encontro internacional de cafés históricos, organizado pelo Café Santa Cruz, que aconteceu em 2018.

A filosofia do Café Santa Cruz assenta na preservação no seu espaço de hábitos característicos de cafés carismáticos, onde folhear um jornal, ler um livro, conversar são rituais e onde, regularmente, se faz a divulgação de cultura nas suas formas mais variadas.

O Crúzio é um doce com raízes monásticas, confecionado com base numa receita antiga, usada quando o Santa Cruz era café e restaurante, utilizando os ingredientes tradicionais: farinha, manteiga, creme de ovo e amêndoa laminada polvilhada com açúcar.


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