A Rainha Santa Isabel foi uma mulher invulgar para a sua época e a sua relação com Coimbra, julgo não exagerar, tem traços simbióticos. Isabel de Aragão faz parte da identidade da cidade e uma das demonstrações mais efectivas desta ligação é o culminar das comemorações religiosas bianuais em sua homenagem. Este ano, excepcionalmente, a festa repete-se para assinalar o ano das comemorações dos 400 anos da canonização da Rainha Santa Isabel (1625).
Para compreender a importância central desta mulher é fundamental conhecer a sua história, a sua vida. Segundo a medievalista Maria José Azevedo Santos a sua biografia mais completa e credível é o Livro que fala da Boa Vida que fez a Rainha de Portugal Dona Isabel. Apesar de o autor ser desconhecido, supõe-se que possa ser o seu confessor, Frei Salvado Martins. Podemos encontrar cópia do seu original no Museu Nacional Machado de Castro que recentemente foi editada por Maria José Azevedo Santos, António Manuel Ribeiro Rebelo, Francisco Pato de Macedo e Isaías Hipólito, com a transcrição integral do texto e fac-símile.
Isabel de Aragão: a menina
Isabel de Aragão, filha mais velha do rei Pedro III de Aragão e de Constança de Hohenstaufen, nasceu numa das cortes mais cultas da época. O seu nome Isabel (de origem hebraica) significa Deus é poderoso, Deus é plenitude, o que simbolicamente alguns associam a uma carga de esperança e de transcendência. Outro aspecto que cria alguma expectativa positiva sobre a sua vida é que, ao nascer (1270), reatou as relações entre o pai – Dom Pedro III de Aragão e o seu avô Jaime I, que ficou encantado com a menina. Tratou-se, inconscientemente, da sua primeira influência pacificadora. Do que não há dúvidas é que Isabel foi instruída para ser rainha e, por isso, teve uma educação primorosa. Aprendeu a ler e escrever (muito raro na época, sobretudo para uma mulher). Culta, curiosa por várias áreas – dominava o latim, o castelhano e o galego-português. Era muito religiosa – desde pequenina que gostava de rezar e de se recolher para meditar. Possuía uma enorme sensibilidade e empatia pelos mais frágeis, pelos ostracizados da sociedade: os pobres, os indigentes, os velhos, os doentes.
Casamento com D. Dinis
Casou com o rei D. Dinis com apenas 11 anos. Teve vários pretendentes, mas o escolhido foi o jovem rei português, por razões políticas – alargar o território de influência do reino de Aragão. Para Portugal este casamento também era oportuno – Aragão na época era muito importante para a economia e Pedro III era uma figura destacada na política peninsular. D. Dinis, que subiu ao trono em 1279, foi um homem especial para o seu tempo: visionário, culto, inteligente, trovador e poeta. Com uma reconhecida capacidade de liderar e uma visão singular para a época, valorizava o conhecimento – o que o levou a fundar a Universidade Portuguesa com a criação dos Estudos Gerais, em Lisboa (1290), transferida pela primeira vez para Coimbra, em 1308. Isabel, ainda muito jovem, acompanha essa fundação. A rainha sai de uma corte culta, mas vem para outra igualmente complexa do ponto de vista cultural.
No entanto, como muitos reis da idade média, D. Dinis teve várias relações extraconjugais, das quais nasceram alguns filhos – o que era aceite à luz do tempo em que viviam. Isabel de Aragão fez questão de os receber em sua casa e de os educar como filhos. Era comum os reis acolherem os filhos bastardos – até por questões políticas. Integravam uma organização distinta da linha sucessória oficial, que só poderia ser continuada pelo primeiro filho legítimo.
Os filhos, a educação. Os conflitos e a diplomacia
Isabel de Aragão e D. Dinis tiveram dois filhos: D. Afonso IV e D. Constança, que morreu com 23 anos, o que causou um enorme desgosto à Rainha. Mãe extremosa, sempre se empenhou na formação e educação dos seus filhos. Muitas vezes, defendeu Afonso da ira do pai. Uma das suas características mais relevantes era a diplomacia. Foi uma pacificadora, geria conflitos de forma sábia, nomeadamente entre o filho e o marido, mais tarde entre o filho e o neto (filho de Dona Constança) – o que, com frequência, impediu confrontos com maior impacto, eventualmente guerras. Na verdade, o principal motivo de discórdia entre os reis estava nessa defesa determinada que Isabel fazia do filho. No entanto, havia proximidade entre a rainha e D. Dinis. O rei reconhece-lhe virtudes, qualidades de mulher de Estado, como demonstram alguns dos poemas por ele escritos.
A Rainha e a sua intervenção social
Filantropa, foi com uma extraordinária intervenção social que conquistou o coração das pessoas. Na época, Portugal enfrentava constantes problemas económicos, com a maior parte da população a viver na pobreza e em condições miseráveis. Todos os actos de solidariedade eram essenciais. Era nesse contexto que a rainha investia uma parte significativa dos seus bens pessoais, e das receitas do reino. Criou hospitais, albergues para doentes (incluindo leprosos) e velhos. Utilizou muitos dos seus rendimentos para alimentar e vestir os mais necessitados. Era incansável na sua dedicação aos outros. Ajudou muitos doentes, curou alguns (o que lhe mereceu a atribuição de vários milagres). No entanto, é interessante referir que a curiosidade da rainha a levou a aprender muito com os médicos da corte, bem como a convivência com o seu irmão D. Jaime II – que se interessava por plantas curativas – lhe terão dado algumas competências na área da saúde. É a esse irmão que, numa das cartas que lhe dirige escreve: “vivo vida muito amargosa”. Perguntar-se-á de onde viria essa amargura. “Talvez da vida conjugal, da perda de uma filha com 23 anos, de ver o pai (seu marido) a lutar contra o filho, o filho contra os irmãos, o filho contra o sobrinho. Tudo isto a devia amargurar. Mas depois os outros. Ela sofre por si e pelos outros. Ela sofre pelos meninos e meninas sem pai e sem mãe, pelas prostitutas exploradas, pelos leprosos, pelos doentes, pelos velhos sem amparo. Tudo isto são motivos para que a rainha desabafe com o irmão”, refere Maria José Azevedo Santos.
A Rainha e a sua fé. O Mosteiro e a cidade de Coimbra
Nunca abandonou a fé. A sua influência religiosa é claramente franciscana. E o espírito de São Francisco de Assis aponta para o amor ao próximo e para a oração.
Quando morre D. Dinis (7 de janeiro de 1325, com 64 anos de idade e 46 anos de governação), Dona Isabel deixou uma vida sumptuosa para viver de forma despojada e humilde. Abandona os trajes de rainha e, de forma frugal, veste-se como uma Clarissa. Continuará a dedicar-se à religião e aos outros. Refunda o Mosteiro das Clarissas, (ramo franciscano feminino), o que lhe dá imensa satisfação, além de a ligar para sempre a Coimbra. Inteligente e sábia, acompanha e dirige os trabalhos das obras afincadamente.
Era uma mulher cultíssima, que conviveu com homens destacados do clero, tendo chegado a corresponder-se com o pontificado.
Morre com 66 anos, em 1336, em Estremoz. Foi, porém, em Coimbra que desejou ser sepultada, tendo marcado desde então a identidade da cidade, de que é padroeira, e das pessoas que a habitam.
No Convento de Santa Clara a Nova podemos admirar a sua arca tumular, o que é uma honra e um privilégio para a cidade.
Ana Rajado
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 3/7/2025]