CULTURA || O Coro das Mulheres do Bairro chegou, em outubro, ao município da Figueira da Foz e já conta com cerca de 80 vozes femininas que cantam pela inclusão. O projeto distingue-se pela sua componente comunitária, intergeracional e intercultural, e visa combater o isolamento e o estigma associado às periferias.
“Cantamos a mesma língua, sentimos a mesma fala e, em sons reversos, espelhamos, de qualquer jeito, dores, sentimentos, alguns amores (…) e reclamamos espaço próprio, repleto de intimidade, e nosso por direito”. Foram estas as palavras que Ana Baptista encontrou para definir o que sente desde o dia em que decidiu embarcar numa nova aventura: integrar o Coro das Mulheres do Bairro. O projeto teve início, em outubro, na Figueira da Foz e, desde então, já cerca de 80 mulheres se uniram no combate ao isolamento e estigma associado às periferias.
“O Coro das Mulheres do Bairro consiste em, precisamente, trabalhar no bairro. Isto é, não concentrar tudo no centro da cidade, mas sim nas periferias”, adianta Vânia Couto, que tem a seu cargo a direção musical do projeto, em declarações ao “O Despertar”. Com 20 anos de experiência na área, a responsável criou também, há quatro anos, o Coro das Mulheres da Fábrica, em Coimbra, que se transformou numa espécie de “pontapé de saída” para que este novo coro surgisse.
“Ao longo dos últimos quatro anos acabámos por crescer bastante como um coletivo, que se afirma como um conjunto de mulheres que trabalha esta questão de ser mulher na sociedade em que vivemos, mas também de ser mulher enquanto cidadã. (…) O impacto social nas participantes (120 no total) foi tão grande que achámos que esta iniciativa tinha que continuar e alastrar-se para outros lugares”, confessa.
O município da Figueira da Foz não quis perder a oportunidade e, depois de uma candidatura à Direção-Geral das Artes (DGARTES), o Coro das Mulheres do Bairro ganhou vida. “Tal como aconteceu com o coro da fábrica, nós queríamos trabalhar em lugares que não fossem propriamente aqueles sítios centrais das cidades”, admite Vânia Couto. Desta forma, não houve grandes dúvidas: o bairro pareceu o local ideal. “O objetivo passa por combater a exclusão social; combater esta ideia estigmatizada dos bairros e abrir o coro a todas as mulheres”, acrescenta.
Espaço de liberdade e união
As inscrições para integrar o Coro das Mulheres do Bairro iniciaram-se em setembro, sendo que, no mês seguinte, o projeto arrancou oficialmente. De momento, são cerca de 80 as participantes, no entanto, o número promete aumentar, já que a iniciativa continua aberta para receber novas pessoas, de forma completamente gratuita. E todas são bem-vindas, independentemente da idade, percurso ou etnia. “As mulheres que nos procuram não têm de ser portuguesas, pelo contrário, até adoramos ter pessoas de outras raízes para podermos cantar canções da sua própria terra”, revela Vânia Couto.
E não importa se sabem cantar ou não. Afinal, não é necessário ter qualquer experiência musical para fazer parte deste coro. “Eu costumo dizer que até uma pessoa muda pode vir, porque não temos propriamente que cantar apenas. A música é a nossa ferramenta primária, no entanto, nós podemos usar todos os tipos de Arte, e todas as formas de manifestação que a mulher pretende fazer”, salienta a responsável. Garante, assim, que foi essa a necessidade de criar esta iniciativa: combater a solidão e promover a união entre as participantes.
“Somos mulheres, decidimos, votamos, cantamos, e debatemos. Isso tem sido uma experiência super valiosa para elas, principalmente. E para mim também. Isto emociona-me bastante e fez-me crescer também como mulher”, confessa a diretora musical. Na sua opinião, esta iniciativa é a prova de que a Cultura pode e deve ser um veículo para a inclusão. “É um ato político, de intervenção, e o cantar junto é um sentimento de união imenso. Neste caso, a Cultura permite unir-nos. É um ato político, é um ato de intervenção, e o cantar junto é um sentimento de união imenso. Neste caso, a cultura permite unir-nos. Sobretudo, sinto que as pessoas têm espaço para pensar, para sentir e para dizer o que pensam, fora das suas vidas normais, das suas casas”, completa.
Criam-se amizades e um “sentimento de pertença”
Os ensaios realizam-se todas as segundas-feiras, das 19h00 às 21h00, no Auditório dos Lavadouros, em Buarcos. Qualquer mulher que queira participar pode aparecer ou então contactar o projeto através do e-mail todaagentesabecantar@gmail.com. Nas sessões são trabalhadas várias canções de cariz nacional. “O Coro das Mulheres do Bairro será como um rancho ou como uma Banda Filarmónica que, há 40 anos, cantavam cantigas. Eu espero que daqui a 40 anos nos venham perguntar que canções cantávamos”, revela Vânia Couto.
Além dos ensaios musicais, o projeto vai contar ainda com outras atividades. Os concertos não vão, obviamente, faltar, mas haverá também lugar para um documentário que dará a conhecer o nascimento do Coro e o impacto social que tem nas pessoas. “A ideia será, no final de um ano e meio, fazermos a apresentação deste documentário com debates e rodas de conversa, com o objetivo de falarmos sobre o que é isto de estar num Coro e que impactos que isso tem”, conta a responsável.
Além disso, estão ainda previstos outros momentos relacionados com as Artes que existem naquela zona do município, como a Arte Xávega e a cestaria. A estas, juntam-se Rodas de Conversa e um “Encontro de Arroz Comunitário”. O propósito passa por permitir que, no futuro, o projeto permaneça vivo na comunidade. De momento, parece estar no caminho certo para que isso aconteça, já que são muitos os benefícios que tem trazido para as mulheres que o integram.
“Há uma sensação de pertença; uma sensação de que, naquele bocadinho, existe um encontro. E a verdade é que as pessoas também já se encontram fora dos ensaios para tomar cafés e para trocar palavras. De repente, criam-se amizades”, realça Vânia Couto. E, com isto, a auto-estima também cresce. “Temos muitas mulheres que, quando chegaram, diziam que não sabiam cantar. Neste momento, são solistas. É a capacidade de a mulher se permitir construir, criar, pensar, dizer algo. E eu acho muito bonito que, no Coro das Mulheres do Bairro, em tão pouco tempo, já se sinta que não é só a voz cantada, é também a voz dita. Elas ganham uma voz pessoal e coletiva”, frisa ainda.
Não obstante, as mais-valias da iniciativa também se fazem sentir a nível regional. “As pessoas acabam por criar um espaço seguro num sítio que, à partida, é visto de uma forma um bocadinho errada, como é o caso ali da zona de Buarcos. O projeto faz com que as pessoas tenham vontade de ir para lá, de se sentirem bem. Deixou de ser um espaço inseguro e passou a ser um espaço alegre e de encontro”, reforça a responsável.
O Coro das Mulheres do Bairro promete dar-se a conhecer ao público em breve, tendo já agendada uma pequena apresentação para o dia 27 de novembro, no Auditório Caras Direitas, em Buarcos, num encontro com a DGARTES e outras instituições. No entanto, a apresentação oficial do grupo realizar-se-à em março do próximo ano. O dia específico ainda não foi revelado, mas o local não podia ser mais óbvio e repleto de significado. “O concerto vai acontecer no próprio bairro para chamar, precisamente, as pessoas ao bairro. Não fazemos questão de ir a nenhum auditório principal da cidade da Figueira da Foz. Teremos de começar no bairro e depois ir por aí”, avança Vânia Couto.
Até lá, as cerca de 80 participantes do Coro das Mulheres do Bairro vão continuar a preparar-se e, acima de tudo, a ser livres. Como escreveu a integrante Ana Baptista, recentemente, ao seu grupo: “divergimos em alturas, nas idades, nas expressões, nas correntes (…) mas quase que sinto que, quando o som nos revira, a linha que nos cruza é feita de luta e orações. Somos mulheres”.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 06/11/2026]