A conselho de uns amigos, desloquei-me a Vilar Formoso, dita Fronteira da Paz, para visitar o memorial «Aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes». Em boa hora o fiz.
Em Junho de 1940 começam a chegar centenas de refugiados à fronteira de Vilar Formoso, via transporte ferroviário. A grande maioria vinha legitimada com vistos passados por Aristides de Sousa Mendes.
Avistam Vilar Formoso cansados, desauridos, atormentados pelas saudades dos entes queridos que deixavam para trás. Haviam perdido quase tudo e a fome atormentava-os. A população de Vilar Formoso ao ver, constantemente, esta situação, e, apesar de pobre e passando grandes dificuldades, levava sopa e pão aos que chegavam, tentando, desta forma singela, amenizar a desgraça.
A Estação de Vilar Formoso, ainda hoje imponente, destacando – se pelo revestimento das fachadas com inúmeros painéis de azulejos que a notabilizam, assistia, chegada após chegada, a espectáculos de desespero e dor. A temática azulejar, topologicamente Estado Novo, que alude a paisagens, monumentos, labores de Portugal, está ainda hoje cimentada em memórias, estórias e testemunhos de arrepiar.
No momento em que já poucos se recordavam destes acontecimentos ali passados, perpetrados pela mente doentia, fanática, ditatorial, demoníaca de Hitler, contra os judeus, eis que alguém revivifica a história.
A Câmara Municipal de Almeida é o seu ressuscitador primordial, os historiadores, os arquitectos, os biografistas, os grafistas que nela colaboraram, são os seus criadores. Mas que obra de relevo ergueram? Um MEMORIAL AOS REFUGIADOS E AO CÔNSUL ARISTIDES DE SOUSA MENDES. Um lugar de emoções vertidas em factos históricos, memórias, testemunhos vivos… em dois pavilhões adaptados para o efeito e pertencentes a Infraestruturas de Portugal, lugar onde, em tempos bem longínquos, se guardavam produtos para despacho.
De arquitectura simples, mas não simplista, este Memorial alberga no seu interior tesouros que são fruto de investigações cuidadas e profundas. O figurativo é sempre adequado às circunstancias e está plasmado nas paredes e em plataformas digitais de forma criteriosa. A luminosidade assertiva ajuda-nos a estar atentos. Tudo dá com tudo. De quando em onde, há lugares de reflexão. Lugares de silêncio no meio da tragédia. Bem pensado.
Temos dois pavilhões.
No Primeiro, podemos aprender tudo sobre Gente Como Nós, O Início do Pesadelo e a Viagem.
No Segundo, tudo saberemos sobre Vilar Formoso Fronteira da Paz, Por Terras de Portugal e A Partida.
No final da visita, se entender que pretende aprofundar o assunto e sobre ele aprender mais, compre o livro de Margarida de Magalhães Ramalho, Vilar Formoso Fronteira da Paz, editado pelo Município de Almeida.
Dele retirei a seguinte frase, bem simbólica dos acontecimentos, dita em 1941 por Miloch Tsrnhanski: «… a Lisboa fluía tudo o que pode fugir aos alemães, na Europa. Toda a gente parou aqui, onde começam as ondas do mar.»
Quando se proporcionar venham ver. Todos. Não se arrependem. Para além do mais, veem divulgar uma das periferias do país. Nelas não se passa nada? Demagogia de muitos. MENTIRA.