Poderia acastelar estas breves palavras em verso, num longo soneto de nostalgia fervilhando a poesia dos dias e dos momentos. Mais do que uma forma de escrita, é a composição dos sentidos e dos sentimentos. Quisesse o mundo olhar a arte na sua forma natural, tudo seria mais simples e Humano. A verdade é que tudo isto será utópico perante as realidades do mundo e do século. A poesia burilada e romântica resiste no que está verde e aceso, mas é hoje rotineira e apressada, tal como a vivemos. Exigem-se hoje estrofes diretas e que se entendam, além do poeta que as sente, ade o leitor entender as palavras e a rima do momento, sendo o mais importante a forma como chegam ao pensamento e ao espírito de quem lê. Continuam a haver bons poetas, muitos deles sem saber que o são. A poesia, como toda a arte está onde a quisermos ver.
E se é nítido sentir um lugar, através da sua história, da nossa própria presença e percurso nele, seria um profundo mergulho na memória relembrar todos aqueles que versificaram a cidade do Mondego. Os de hoje e os de outrora. Poetas, músicos, vozes supremas de toda uma canção que reflete essa poesia tão fecunda de saudade. Hoje, a mítica cidade é deveras isso mesmo, mítica, pois tanto se lira de quadras como se narra de desprezo. Aqui as quadras sempre se ouviram desde sempre como em toda a parte, na popularidade cotia dos folguedos e da poesia do povo, aos sonetos que sempre andaram envoltos de capas negras, à poesia que apenas cai no papel e nele permanece como uma das formas mais sinceras de criar e transmitir. Poderia elencar muitos nomes, mas hoje recordo o Dr. Manuel Bontempo.
Um Homem que trouxe a arte assiduamente a estas páginas a quem era fiel. Durante longos anos as páginas de O Despertar foram a tribuna e o palco das suas palavras, tão notórias e com saudade recordadas neste jornal onde fez só por si uma grande obra. Da pintura, à música, à poesia, era a sua crítica a sua maior arte para um homem que nunca desejou tributos e louvores. A força da gratidão eu sentia desde cedo, mais forte à medida que nos foi rareando com suas palavras até ao fim. Poderia deixar frases e ensinamentos das suas crónicas, cartas e algumas conversas, mas só num livro caberiam. Relembremos como afirmava que “A poesia estimula o leitor e aguça os instintos, as emoções, aflora as consciências quando se associam as formas e esmiúça os fenómenos psíquicos, o amor, o ciúme, paixão, as imagens e um conjunto de sensações adormecidas.” (15, Jan, 2021)
Enquanto houver palavras, há algo que permanece, e quem as escreve tem o poder de ficar até que um último as leia. Esse alguém será sempre depois de carregadas muitas gerações. Se a data de nascimento é uma data festiva para lembrar alguém, não a sabemos, nem por certo é uma verdade, pois tal como a poesia tem dias e não um dia, aqui vos deixo versos de um POETA,
Ao teu hino
“O hino que me mandaste,
É lindo como as estrelas,
Hei-de cantá-lo no céu
Quando estiver ao pé delas.
(…)
Hei-de levar os teus versos,
Para mostrar ao luar,
Já os guardei na minha alma,
Para com ele os cantar.
A tua alma é um poema,
De amor e de mansidão,
Por lhe querer como à minha
Gravei nela esta canção.“
(Manuel Bontempo, Abril de 2022)