Esta semana voltei a entrar numa sala de cinema depois de muito tempo. Confesso: detesto salas de cinema em centros comerciais. Cheiram a pipocas e refrigerantes. Mas desta vez arrisquei, porque ia ver um filme genial. Português, superiormente dirigido, com um elenco de luxo. Para alguns é uma comédia, mas para quem é apaixonada por Lisboa (e Barcelona) é, no fundo, um filme triste. Já lá iremos. Primeiro, o outro filme, aquele que aconteceu cá fora.
Aproximei-me da bilheteira com as duas jovens amigas que me acompanhavam, confiante e com o sorriso de quem vai passar uma tarde divertida. E foi então que ouvi, vinda do outro lado do balcão, a pergunta:
– Dois bilhetes normais e um sénior?
Fiquei parada, ainda a processar o que tinha escutado, quando uma das minhas amigas perguntou:
– A partir de que idade se é sénior?
– 65 anos, respondeu o rapaz.
A minha amiga virou-se para mim, com ar de gozo e foi nessa altura que decidi lançar uma bola ao cesto:
– Queremos dois bilhetes normais e um de estudante. Quer ver o meu cartão?
O rapaz quase faleceu de juventude. Olhou para mim, olhou para o ecrã e pediu para escolhermos os lugares. Este foi mais um momento de tensão, porque o sistema dizia que havia poucos lugares disponíveis. Escolhemos, resignadas, os nossos lugares.
Entrámos na sala e, para minha surpresa, esta estava longe de estar cheia. Muito longe! Ali cabia a população de uma aldeia, sem ninguém precisar de cotovelar o vizinho. Foi então que percebi o esquema: vendem “lugares a monte”, para facilitar a limpeza da sala no final. Ou seja, o espetador é organizado como quem arruma o quarto: tudo num canto, para varrer mais depressa. Genial, do ponto de vista de poucos. Desastroso, do ponto de vista de muitos.
Instalei-me e preparei-me para desfrutar do filme que me tinha feito sair de casa. Seguiram-se 20 minutos de anúncios, com a maior parte deles repetidos, como se a sala fosse um lugar de castigo publicitário. Vi o mesmo telemóvel a ser lançado três vezes. Vi o mesmo carro a atravessar o deserto quatro vezes. Quando finalmente as luzes baixaram e o filme começou, senti-me agradecida.
E o filme? O filme, como disse, era genial. Mas isso é outra crónica.
Entretanto fica a lição: uma ida ao cinema pode transformar-se num filme!