2 de Outubro de 2026 | Coimbra
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CLARA LUXO CORREIA

…uma ida ao cinema pode transformar-se num filme!

2 de Outubro 2026

Esta semana voltei a entrar numa sala de cinema depois de muito tempo. Confesso: detesto salas de cinema em centros comerciais. Cheiram a pipocas e refrigerantes. Mas desta vez arrisquei, porque ia ver um filme genial. Português, superiormente dirigido, com um elenco de luxo. Para alguns é uma comédia, mas para quem é apaixonada por Lisboa (e Barcelona) é, no fundo, um filme triste. Já lá iremos. Primeiro, o outro filme, aquele que aconteceu cá fora.

Aproximei-me da bilheteira com as duas jovens amigas que me acompanhavam, confiante e com o sorriso de quem vai passar uma tarde divertida. E foi então que ouvi, vinda do outro lado do balcão, a pergunta:

– Dois bilhetes normais e um sénior?

Fiquei parada, ainda a processar o que tinha escutado, quando uma das minhas amigas perguntou:

– A partir de que idade se é sénior?

– 65 anos, respondeu o rapaz.

A minha amiga virou-se para mim, com ar de gozo e foi nessa altura que decidi lançar uma bola ao cesto:

– Queremos dois bilhetes normais e um de estudante. Quer ver o meu cartão?

O rapaz quase faleceu de juventude. Olhou para mim, olhou para o ecrã e pediu para escolhermos os lugares. Este foi mais um momento de tensão, porque o sistema dizia que havia poucos lugares disponíveis. Escolhemos, resignadas, os nossos lugares.

Entrámos na sala e, para minha surpresa, esta estava longe de estar cheia. Muito longe! Ali cabia a população de uma aldeia, sem ninguém precisar de cotovelar o vizinho. Foi então que percebi o esquema: vendem “lugares a monte”, para facilitar a limpeza da sala no final. Ou seja, o espetador é organizado como quem arruma o quarto: tudo num canto, para varrer mais depressa. Genial, do ponto de vista de poucos. Desastroso, do ponto de vista de muitos.

Instalei-me e preparei-me para desfrutar do filme que me tinha feito sair de casa. Seguiram-se 20 minutos de anúncios, com a maior parte deles repetidos, como se a sala fosse um lugar de castigo publicitário. Vi o mesmo telemóvel a ser lançado três vezes. Vi o mesmo carro a atravessar o deserto quatro vezes. Quando finalmente as luzes baixaram e o filme começou, senti-me agradecida.

E o filme? O filme, como disse, era genial. Mas isso é outra crónica.

Entretanto fica a lição: uma ida ao cinema pode transformar-se num filme!


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