24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Uma ética ambiental

21 de Novembro 2025

Que tipo de Terra e de vida vamos deixar de herança às gerações futuras? – esta é uma questão pertinente e é a partir dela que temos o dever de refletir criticamente acerca da nossa ação presente sobre a natureza. Trata-se, afinal, de uma questão ética, pois trata-se de defender um certo modo de existência das gerações futuras. Segundo o filósofo alemão, Hans Jonas, a natureza deve ser protegida porque devemos reconhecer que o direito a um planeta habitável é um direito das gerações futuras. Devemos prever as consequências nefastas do nosso poder científico-tecnológico e impor-lhes limites, alterando, também, os nossos hábitos e atos individuais e coletivos. A responsabilidade acerca das gerações futuras é, afirma Jonas, indissociável de uma responsabilidade global relativamente à biosfera. O Homem deve ter um conjunto de deveres para com a natureza que, segundo Hans Jonas, se expressa num imperativo categórico: “Age de tal forma que as consequências da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana na Terra”.  Podemo-nos ainda questionar sobre os fundamentos da responsabilidade ecológica: porque devemos preservar a natureza? Relativamente a esta questão, diferentes movimentos ecológicos orientam-se por duas grandes conceções: a corrente ambientalista ou reformista e a corrente designada por ecologia profunda, mais radical. De acordo com a primeira, deve preservar-se o meio natural para o ser humano desfrutar os prazeres da natureza e, nesse sentido, o desenvolvimento deve ser feito de modo sustentável para que não haja degradação e destruição dos equilíbrios naturais. O ser humano faz parte da natureza, pelo que deve preservá-la para garantir a sua própria sobrevivência. Por outro lado, e de acordo com a ecologia profunda e os partidários das ecologias biocêntrica e ecocêntrica, como Aldo Leopold, James Lovelock ou Paul Taylor, a natureza deve ser respeitada e protegida, independentemente dos interesses humanos, porque a natureza tem direitos e tem um valor intrínseco e não apenas instrumental. Segundo esta posição, todas as espécies vivas que existem à face da Terra são igualmente importantes, e não apenas o Homem, que é tão digno como qualquer outro ser vivo: como defende Taylor, todo o organismo vivo é digno de consideração ética.

A crise ambiental que vivemos, impõe a criação de uma ética que transcenda o homem e a sua ação. A ética tradicional, antropocêntrica, é uma perspetiva insensível à natureza, colocando o Homem à vontade para se apropriar e controlar a natureza, a ponto de, sem escrúpulos e sem sentir qualquer culpa, a destruir. Exige-se então o postular de uma ética que tenha em atenção os direitos de todos os outros seres não humanos que habitam na natureza. É essa a posição de Peter Singer que pretende incluir os animais não humanos na esfera da consideração moral, constituindo uma ética animal. Segundo este autor, a “senciência” – a capacidade de sentir prazer e dor – deve ser a fronteira da moralidade. Se um ser sofre, defende Singer, mesmo sendo um ser não humano, não pode haver justificação moral para não ter o sofrimento em consideração. É imoral provocar sofrimento em todo o ser vivo que sente dor. Por isso, o que determina que um ser seja digno de consideração moral não é, segundo Singer, a sua capacidade de falar, de ter consciência e razão ou outras competências cognitivas superiores, mas apenas a capacidade de sentir dor e prazer.

Torna-se necessária a constituição de uma nova ética, centrada na responsabilidade e que seja decisiva para a mudança de mentalidades e de atitudes existenciais relativamente à natureza, compreendendo todos os seres como dignos de respeito. Todos somos responsáveis e está nas nossas mãos alterar a situação: em vez de continuarmos a viver desinteressados das questões ambientais e de costas voltadas para a natureza, podemos e devemos viver em harmonia com ela. Para isso, devemo-nos consciencializar de que temos de transformar radicalmente o nosso modo de viver e de conceber o progresso e a civilização.


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