Um indivíduo relatou-me, há dias, que em maio passado fez uma viagem de comboio, de Coimbra B até Grândola, repartida por duas etapas: a primeira até Lisboa (Gare do Oriente), no Alfa Pendular, em 1ª classe e, enquanto aguardava pelo transbordo para o Intercidades, constatou que a gare e os sanitários se mantinham num estado de limpeza e conservação espaciotemporal anti-higiénico, não tanto acentuado nas zonas de circulação dos passageiros, mas muito sensível nos sanitários, que exalavam um odor saturante de insalubridade e de sujidade expansivos para o exterior, projetando uma imagem degradante de uma das principais entradas de Lisboa, não só para os nacionais, mas sobretudo para os turistas que nos visitam.
E esse indivíduo continuou a descrever-me como decorreu a segunda etapa até Grândola: a viajar na suposta 1ª. classe, do Intercidades, no qual, apesar dos lugares estarem marcados, a afluência de passageiros, maioritariamente turistas (ingleses), carregando um excessivo volume de bagagem, tornaram muito difícil o seu acondicionamento no espaço reservado, para esse fim, sobrando ainda uma parte substancial para as prateleiras, sobre-erguidas aos bancos, numa balbúrdia e desconforto para os outros passageiros, evitável se os turistas fossem mais contidos e respeitam os direitos dos restantes.
Referiu, também, que essa incómoda confusão poderia ter sido sanda se os senhores revisores atuassem tempestiva e nomeadamente numa ação de descongestionamento de bagagens, de apoio e de orientação dos turistas, que se interrogavam, uns aos outros, quanto à incapacidade do funcionário, e ainda à falta de meios sonoros, que os informassem acerca das suas precisões, além de que aqueles simpáticos, mais ineficientes, revisores, nem sequer sabiam esboçar algumas palavras numa das duas línguas dominantes no espaço da UE, o que lhes provocou alguns notados desabafos, nada abonatórios acerca da capacidade, qualidade e funcionamento daquele comboio de 1ª classe (?), que o dito indivíduo compreendeu e interpretou, porque tinha aptidão para traduzir, ad hoc, o respetivo idioma; mas optando por se manter em silêncio.
Na mesma linha de pensamento, da qualidade e da oferta do nosso turismo, vimos agora corroborar as notícias televisivas, que nos mostram o “caos” e as longas e persistentes filas de passageiros, nacionais e estrangeiros (muitos dos quais turistas), que se formam, com maior relevo no Aeroporto Humberto Delgado, atribuídas, dizem os responsáveis, à implementação do novo Sistema de Entrada/Saída (EES) da UE; às falhas informáticas reversivas; à falta de pessoal de controlo; e, à sobrecarga estrutural do próprio aeroporto, o que, aliás, é comum aos restantes aeroportos continentais e insulares.
Diga-se, em abono da verdade, que idêntico panorama se observa noutros países, mais ricos e desenvolvidos que o nosso, mas esse facto não nos deve isentar de preocupações, porque o ambiente não é estável, e ainda temos muito caminho para andar, nesse contexto.
É que aquele aeroporto, não tendo acompanhado a evolução dos tempos, debate-se com um verdadeiro atrofiamento de saída e entrada dos passageiros no espaço disponível, de cuja situação insistentemente se queixam, dando origem à formação de filas de espera de, pelo menos, três a cinco horas, no controlo de fronteira, situação crítica, sobretudo para os voos internacionais, fora do espaço Schengen, ao ponto de alguns já não conseguirem seguir no voo pré-contratado, com as decorrentes consequências – quase sempre não compensadas – , que daí lhes advêm.
Só uma panaceia de interesses obscuros pode explicar as razões que condicionaram os sucessivos governos, desde o do Dr. Mário Soares até ao presente, para abandonarem projetos e, paralelamente, consumirem dezenas de milhões, num jogo de carambola, de entre ampliar o aeroporto da Portela, construir um novo na Ota; depois em Peniche e, finalmente, em Alcochete, atrasando, ingloriamente, aquela desventurada obra em algumas dezenas de anos, que provocaram estas soluções de continuidade e revelaram incúria e incompetência, se outras razões ocultas não surtiram efeito, sendo essa a primeira e subsistente causa que gerou o “caos”, ora vergonhosamente vivido, nos nossos aeroportos.
Com todo esse desconforto, e bolandas, que os turistas já experimentaram, seria de esperar que a concorrência de grandes e belas instâncias turísticas, espalhadas por todos os continentes, tivessem já ofuscado as nossas, que lhes oferecemos, carecidas de melhores transportes, de higiene e comodidade, reveladas à vista desarmada; e que as receitas do turismo diminuíssem consideravelmente.
Então não é que – o que nos espanta – é que o turismo vem gerando uma euforia nos nossos governantes, porque arrecadaram no ano transato, receitas diretas do turismo que atingiram o recorde de 29,4 MM de euros, e as projeções do setor para 2026 apontam para contribuições que podem ascender a mais de 74 MM de euros, globalmente considerados, e quando se avalia o contributo total do turismo na economia (que inclui também o impacto indireto e induzido na cadeia de valor, como o transporte e restauração), esse rácio situa-se entre 19% e 22%do PIB, de acordo com as estimativas do World Travel & tourism Council, posicionando-se este setor como a principal atividade exportadora do país.
Esses surpreendentes resultados – face ao quadro desconfortante que descrevemos – , que nos põem a cogitar sobre o fenómeno ou a engenharia que gerou esta realidade, porquanto essa suposta consistência não se nos afigura tão fiável como o governo faz transparecer, pois lá diz o aforismo: “não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe” e, por vezes, até se esvai repentinamente. Mas se não é milagre, então é outro provérbio a funcionar: “quanto mais lhes batemos mais os turistas gostam de nós!. Mas nada de confiar…?
(Cfr. tb. o Google)