29 de Junho de 2026 | Coimbra
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“Acolher em Comunidade” usa tradição para apoiar recém-nascidos em Góis

29 de Junho 2026

SOLIDARIEDADE | Com cerca de um mês de atividade, o “Acolher em Comunidade” já tem feito a diferença no concelho de Góis. Dinamizado pelo Clube da Malha e dos Lavores, o projeto comunitário junta diferentes gerações para criar peças em crochet e tricot que são, posteriormente, oferecidas como kits a recém-nascidos.

Mimar as novas famílias do concelho através dos saberes tradicionais: é esse o principal objetivo do projeto “Acolher em Comunidade”. A funcionar desde o mês passado, em Góis, a iniciativa nasceu da vontade dos participantes do Clube da Malha e dos Lavores em dar continuidade a ações comunitárias, promovendo a solidariedade e a partilha de conhecimentos. Assim, neste espaço, os grupos têm desenvolvido peças de crochet e tricot, dando forma a kits destinados a bebés recém-nascidos. Uma ação que representa diversas mais-valias, nomeadamente, no que diz respeito à preservação do património cultural local e à união entre pessoas de diferentes gerações.

“Quem participa pode ensinar e aprender. A ideia é que não se perca o conhecimento sobre os saberes tradicionais. Ao mesmo tempo, fomenta-se o convívio, o espírito de entreajuda e o fortalecimento de laços comunitários”, explica o presidente da Câmara Municipal de Góis, Rui Sampaio, em declarações ao “O Despertar”.

Através destes trabalhos artesanais e manuais, o “Acolher em Comunidade” permite, assim, transformar solidariedade, envelhecimento ativo e partilha intergeracional em gestos de acolhimento e proximidade. “É mimar e acolher com um gesto simbólico as novas famílias do nosso concelho”, sublinha ainda o autarca.

 

Celebrar a natalidade e reforçar a entreajuda

Qualquer pessoa, independentemente da idade, pode integrar o Clube da Malha e dos Lavores e, assim, produzir diversas ofertas simbólicas para as famílias. “Esta é uma forma de aproveitar os saberes das pessoas mais velhas e de trazer os mais novos para estes projetos”, revela Rui Sampaio.

A troca de conhecimentos entre gerações distintas não só possibilita o desenvolvimento de competênciais sociais e criativas, como ajuda no combate ao isolamento. “O nosso concelho tem características próprias, fruto do envelhecimento da população, que nos motivam a criar este tipo de atividades para reforçar os laços comunitários e para manter os cidadãos ativos”, salienta.

Assim, enraizada no território e nas pessoas, a iniciativa evidencia a importância do envolvimento comunitário. Neste caso concreto, é assinalado um dos momentos mais especiais da vida familiar: o nascimento de um bebé. “É um projeto recente, no entanto, neste momento, já temos três kits completos que englobam uma mantinha, casaco, gorro e botinhas”, adianta o presidente da Câmara de Góis.

Assim que estão prontos, os kits são entregues às famílias, como forma de “dar as boas-vindas às crianças que nascem, porque nós temos necessidade de gente nova e esta é também uma forma de mostrar a nossa preocupação em acolher as famílias”, frisa. Apesar da iniciativa estar a funcionar há apenas um mês, “o que se pretende é que, a curto prazo, se concretizem ainda mais kits. Os participantes estão muito empenhados nisso”, garante o responsável.

 

Como participar?

Qualquer pessoa pode fazer parte do “Acolher em Comunidade” através da confeção de peças ou da doação de materiais. O município convida todos os interessados a tecerem uma manta, um casaco ou outro artigo de vestuário, apelando apenas a que o fio usado seja antialérgico e adequado a bebés. Assim que o trabalho esteja concluído, basta deixá-lo num dos seguintes pontos de entrega: Associação dos Amigos da Várzea Pequena, na freguesia de Vila Nova do Ceira; Comissão Melhoramentos Cortes, na freguesia de Alvares; ou na Biblioteca Municipal de Góis António Francisco Barata, na freguesia de Góis.

Até ao momento, Rui Sampaio não podia estar mais satisfeito com a adesão por parte da população. “As pessoas vão dizendo umas às outras o que é que estão a fazer, a mais-valia e o bem-estar que sentem em poderem partilhar o seu conhecimento e em estarem juntas. Tem resultado muito bem”, orgulha-se.

Nesse sentido, o presidente da Câmara de Góis não tem dúvidas de que a iniciativa veio para ficar. “Este é um projeto contínuo, que se manterá enquanto a comunidade assim o pretenda. O município está aqui, deste lado, para ser também uma parte ativa, promovendo a junção das pessoas e colaborando para que isso se possa materializar”, assegura.

Existe, por isso, uma preocupação por parte da autarquia em ouvir a população, visto que “esta é uma atividade partilhada entre todos e tudo aquilo que possa melhorar a intenção do projeto será bem acolhido”, afirma Rui Sampaio.

 

Solidariedade que abre portas

O empenho contínuo do município de Góis em construir uma comunidade mais solidária e dinâmica nas diversas gerações foi, recentemente, reconhecido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro), através da conquista do selo “Territórios da Longevidade 2024”. O município arrecadou ainda o “Prémio Inovação da Longevidade”, reconhecimento que reforça o seu compromisso com o bem-estar da população sénior.

Recorde-se que o concelho enfrenta um índice de envelhecimento severo, com cerca de 455 idosos por cada 100 jovens. Deste modo, para combater o isolamento e promover a qualidade de vida, a autarquia tem criado uma série de projetos. O “Acolher em Comunidade” é um deles, já que, ao unir pessoas de diferentes gerações, contribui para que crianças e jovens sintam uma maior ligação com a comunidade onde estão inseridas.

“Naturalmente, não é isso que vai impedir os jovens de irem embora. Contudo, pode fazer com que se sintam mais próximos, mais identificados e com mais vontade de permanecerem no concelho. Quem sabe, através destas atividades e dos conhecimentos que adquirem, no futuro, possam abrir um negócio ligado a este tipo de iniciativas”, admite Rui Sampaio, frisando que “são sempre portas que se abrem”.

Não obstante, pelas suas particularidades, as vantagens deste projeto podem sair do concelho e inspirar outros municípios a seguir-lhe as pisadas. “Cada território tem características próprias e, dentro dessas características, podem desenvolver-se diversas atividades. Há tradições que estão presentes nas regiões e que podem motivar iniciativas com o mesmo espírito do ‘Acolher em Comunidade’”, refere o presidente da Câmara de Góis.

Com o propósito de transformar pequenos gestos em demonstrações de cuidado e afeto, o “Acolher em Comunidade” mostra que as tradições locais podem ser importantes no cimentar de valores como a solidariedade e a empatia. “Os trabalhos manuais que são feitos no projeto são destinados a alguém: às famílias e recém-nascidos. Esta é uma forma de termos solidariedade, de estarmos perto, de acolhermos e de nos preocuparmos com o outro, e não apenas connosco”, conclui.

 

Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 26/06/2026]


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