29 de Junho de 2026 | Coimbra
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José Elyseu: o “mestre” da canção Coimbrã que a história não esquece

29 de Junho 2026

A história da música de Coimbra é feita de cordas que ecoam nas ruelas da Alta, mas também de partituras que nasceram no coração da Baixa e na envolvência rural do Mondego. Entre as figuras mais completas, destaca-se José das Neves Elyseu. Musicógrafo, compositor, maestro e violinista de mão cheia. Revolucionou os ranchos populares e compôs algumas das melodias mais icónicas da cidade, incluindo a célebre “Balada de Coimbra”.

Com um contributo inestimável, o nome de José Elyseu marcou uma geração e está bem presente na memória de quem privou com o seu talento.

Nascido na Baixa de Coimbra a 26 de maio de 1872, José das Neves Elyseu cresceu num ambiente onde a música era o pão de cada dia. O seu pai, Abel Ferreira das Neves Elyseu (1837–1915), fora regente da prestigiada Philarmonica Conimbricense e músico da Banda dos Bombeiros Voluntários, acumulando essas funções com o trabalho de decoração de casas senhoriais e a fiscalização do mercado.

Contudo, a primeira qualificação formal de José Elyseu não foi nas artes, mas sim no campo. O jovem formou-se como Regente Agrícola na Escola Central Prática de Agricultura de Coimbra, instalada na Quinta do Bispo, em Bencanta. Foi uma profissão que exerceu com distinção, chegando a ser funcionário e professor na mesma instituição e, mais tarde, presidente da Câmara Municipal de Penela.

A ligação à terra nunca o afastou da sua “extraordinária vocação”. Aliando uma formação musical sólida a uma criatividade nata, José Elyseu dividia os dias entre a gestão agrícola e a música, tendo sido executante de rabeca e violino, transformando-se num dos mais ativos dinamizadores das serenatas populares, em vários locais dos quais se destacam Bencanta, Penacova e Coimbra. À “sua” Bencanta, que tanto amava, dedicou, em 1903, a composição “Não Ames”, também conhecida por “Canção da Bencanta”.

 

O ano de ouro

Em 1908, José das Neves Elyseu atingiu um dos pontos altos da sua carreira artística ao assumir a regência da Tuna Académica de Coimbra (TAUC), sucedendo ao regente Theóphilo Russel. Num ano marcado pela presidência do estudante José de Almeida Eusébio e pelo brilhantismo do jovem violinista Maurício Costa, Elyseu provou que a sua sensibilidade musical conseguia dialogar perfeitamente com a irreverência e a exigência do meio académico.

A sua versatilidade levou-o também aos primeiros palcos da sétima arte. Em 1914, integrando um sexteto de cordas, Elyseu garantia o acompanhamento musical ao vivo dos filmes mudos que se projetavam no ecrã do Cinema Sousa Bastos (antigo Cinema D. Luís). Era a música a dar alma às imagens, muito antes de o “sonoro” revolucionar as salas de espetáculo.

 

A conceituada “Balada de Coimbra”

Se há obra que define o génio melódico de José das Neves Elyseu, é a “Balada de Coimbra”. Cantada pela primeira vez por Joaquina Casimiro Pessoa Guedes durante uma serenata fluvial em Penacova, a peça tornou-se rapidamente um sucesso e espoletou um dos episódios mais curiosos da história musical de Coimbra, envolvendo o mítico Artur Paredes.

Na altura, o mestre Elyseu viu-se na obrigação de reivindicar publicamente a autoria da composição, após Artur Paredes a ter tocado em público como se fosse uma criação sua. Confrontado, o genial guitarrista justificou-se, esclarecendo que a sua interpretação não passava de “um estudo” desenvolvido a partir da partitura original de Elyseu. A força da melodia era tal que, anos mais tarde, o Emissor Regional de Coimbra da Emissora Nacional utilizou-a durante muito tempo como indicativo de abertura das suas emissões radiofónicas.

A veia criativa do compositor estendeu-se a outros clássicos como “Canções Populares de Coimbra”, “Fado de Coimbra”, e as celebradas “Jóia Querida” (1919) e “Guitarra Geme” (1919), ambas com poemas de Horácio Poiares.

 

O folclórico diferenciador

Para além das baladas e dos fados, José das Neves Elyseu foi um revolucionário do folclore urbano de Coimbra. O ensaiador e musicógrafo dedicou-se afincadamente à organização de ranchos folclóricos, com os quais percorreu o país, arrecadando ovações estrondosas em palcos lisboetas.

O seu grande laboratório foi o Pátio da Inquisição. Ali, ensaiou coletivos e coreografou espetáculos memoráveis, como “Do Sonho à Realidade” (com texto de Francisco Macedo), estreado numa das primeiras récitas do 5.º ano jurídico.

O historiador Octaviano de Sá, na sua obra “A Tricana” no Folclore Coimbrão, imortalizou este impacto de forma clara. “O Pátio da Inquisição, com agrupamentos muito bem organizados pelo hábil musicista José Elyseu, marcou para o futuro um moderno aspeto dos Ranchos que dançavam as fogueiras de São João. Consegue aplausos do público aos seus bailados, tem mesmo uma plateia para as suas exibições, e dali saem os vários ensaiadores para outros ranchos locais e até para outras terras do país.”

 

Um legado

José das Neves Elyseu faleceu precocemente na sua Coimbra natal a 13 de novembro de 1924, com apenas 52 anos. Deixou a esposa, Eugénia Pessoa Elyseu, e seis filhos. A linhagem musical da família perpetuou-se através das gerações, cruzando-se mais tarde com os “Zés Tregos”, uma dinastia de músicos populares onde se destacam José Lopes da Fonseca (viola) e José de Sousa Lopes, este último membro da TAUC por 59 anos.

 

Cristiana Dias
»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 26/6/2026]


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