Nunca se saberia se aquele dia, o tal dia 30 de Dezembro de 2024 seria o último daquelas vidas. Se é certo que, excessivas vezes, a palavra tragédia é tratada na comunicação social de forma leviana, temos de reconhecer que certos acontecimentos são trágicos: uma morte, em qualquer idade, por acidente quase inquestionável na precisão, cego por natureza, é tão inesperado quanto brutal. É trágico, foi trágico, porque foi repentino, inesperado, violento.
Américo Petim e sua esposa Lurdes Petim, foram vítimas dessa tragédia que postergou em mágoa infinda, os seus três filhos e netos e todas as pessoas que os estimavam, – muitas, por sinal.
Morreram no quarto andar de um edifício em Monte Formoso, onde residiam há cerca de 50 anos; aí criaram raízes verdadeiramente comunitárias; criaram os filhos. Moravam dois andares acima do meu. O seu desaparecimento varreu e quebrou, num ápice, os nossos laços cinquentenários.
Não vou por entre os dedos destas singelas palavras, descrever a biografia ou a história de vida desde casal. Outros o farão, com verdade. Quero antes aqui realçar as qualidades humanas de ambos, o seu poder conciliador, harmonizador de conflitos, que rapidamente os transformaram em líderes locais democráticos. Pessoas serenas, interlocutoras, prontas a solucionar diferendos.
O meu amigo Petim foi um distinto animador social, cultural, autárquico, associativo, religioso, de solidariedade desprendida. Apesar de pugnar por todas vertentes essenciais à sociedade, nunca deixou de pugnar pela sua actividade profissional e pessoal.
Chorei ao ter conhecimento das suas mortes. Lágrimas muito salgadas, saídas de olhos que já pouco choram. Os velhos, como eu, com quase 82 anos, já só vertem com as tragédias.
Fomos vizinhos durante 50 anos, como está explicito.
Aquele dia fatídico cortou-nos a amizade não cultivada na exuberância, mas na solidão da solidariedade. Éramos amigos sim, apesar das nossas formas de pensar e convicções de estar serem diferentes. Sabíamos observar-nos no que era de substancial, essencial.
Sou um memorialista. Vou guardar-vos para sempre, até por cá andar … E o quadro que me ofertaste, pendurado na parede do meu corredor, sempre que passar por ele, lembrar-me à:- por aqui passou a criatividade do Petim.
Vão fazer-me falta.
Até já amigos.