Foi terrível. Não abrangeu todo o país, mas a região centro foi amplamente fustigada pelas depressões que ocorreram recentemente. As respostas foram desiguais ao longo das zonas afetadas, mas a SOLIDARIEDADE foi quase um denominador comum. Vem a propósito recordar: Em 1967 houve tragédia idêntica na região de Lisboa causando cerca de 700 mortos. Na ocasião, o Governo quis silenciar a devastação de casas e vidas que ocorreu entre 25 e 26 de novembro. E vou contar-vos: Nesse dia, melhor, nessa noite, acompanhado pelo cartunista Zé Oliveira, pretendíamos sair de Lisboa para Coimbra pois tínhamos ido fazer uma reportagem para a Revista Capa e Batina. Os dois com o traje académico ao verificarmos que tinham sido canceladas as circulações ferroviárias decidimos ir para a estrada pedir boleia. Conseguimos que tivesse parado um Mercedes com duas jovens que viemos a saber eram americanas, filhas de pais portugueses. Tinham vindo à Europa buscar um carro em trânsito para levar para a América e aproveitaram para visitar Portugal. Deram-nos boleia porque confundiram-nos com padres por causa da capa e batina. Sendo eventuais sacerdotes devem ter-se julgado mais protegidas. Antes de chegarmos a Vila Franca uma tenebrosa carga de água levou-nos a peripécias inimagináveis. A condutora entrou em fase de quase histeria e tive de conduzir o carro com mudanças que desconhecia. Chegámos a estar quase arrastados pela água na estrada que se transformara em rio; e em sucessivos rios. Foi uma odisseia até Leiria onde fizemos uma paragem para a possibilidade de um pouco de descanso e de secarmos as nossas roupas. No dia seguinte quase uma ausência total de notícias nos jornais. A Censura procurou silenciar a catástrofe. Soubemos que os Estudantes de Lisboa, perante a tragédia, organizaram-se em grupos de apoio e solidariedade. Ajudaram as vítimas que viviam de um modo geral em condições paupérrimas. Aos poucos foram saindo algumas notícias, mas para o público em geral quase nada tinha acontecido. O silenciamento era uma das armas do regime. Esta tragédia que acabamos de viver com milhões de euros de prejuízos ao nível material e várias vidas humanas perdidas, direta ou indiretamente, número a que se juntaram nesta quarta-feira pela manhã os corpos do casal de sexagenários detetados quando as águas baixaram, veio a ter um registo que é preocupante pois ainda mostrou, continua a mostrar, construções habitacionais fracas e algumas em linhas de água. Desta vez as televisões proliferaram e esmiuçaram com detalhes alguns dos quais, presumo, poderiam ter sido evitados. Faltou ainda a necessária comparação com as cheias de outrora, pelo menos, as dos anos 60 e 70. Será importante fazer uma análise minuciosa da atual catástrofe – e é também para isso que serve a Comunicação Social. Para evitar futuras tragédias. Permitam-me rematar este texto reforçando a enorme solidariedade que está na alma do cidadão português, tanto no passado como no presente.