24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Testemunhos: Viagens VII

10 de Novembro 2023

Romagem às minhas origens. Florear os mortos é dar vida às memórias de antanho.

Todos os anos, por altura dos Santos e Finados, rumo até à Guarda e, depois, vou até à pequena aldeia de Amoreiras do Mondego onde viviam os meus avós. Na Guarda vivi a minha juventude. Gosto de subir até lá, revisitar o seu frio agreste, passar pelas casas onde vivi,  percorrer as ruas da velha urbe onde se abrigam ancestrais memórias e estórias.

Gosto de calcorrear as ruas por onde tantas vezes passei, recordar as casas onde vivi. A Escola Primária, ainda existente. O velho Liceu, no sopé do altíssimo castelo, permanece firme de granito feito. Os cafés, onde discuti as utopias realizáveis da altura e onde, em surdina, se discutia política e se dizia mal do Antigo Regime e do Estado Novo, é que já não são. Desapareceram.

Por onde passo sinto-me novo, jovem. Cada pedra que calco traz uma memória, cada rua tem uma estória para contar, cada casa vivências imperdíveis. Boas e más. As Escolas, ai as Escolas, só eu sei o que elas contam. O frio embriaga-me os ossos. Tantas memórias que o frio, o vento, o nevoeiro medonho e a neve têm para desfiar sobre mim. Sobre tantos outros. Foi um filme que passou na minha cabeça, por vezes às cores, outras vezes a preto e branco, quantas desgostosamente sem cor.

Na Guarda compro flores. Flores para os mortos que estão mais abaixo na pequena aldeia das Amoreiras. Compro sempre flores à partida. Desço o Mondego. Apanho castanhas «chochas» no destruído «Soito» do Bispo. Continuo a descer. Desço ainda mais. Aí estou no cruzamento para Porto da Carne, onde muitas vezes apanhei a carreira para a Guarda.

Começo a percorrer a estrada que me leva às Amoreiras. Agora alcatroada. Outrora pejada de buracos cheios de água. Só buracos. Tanto buraco tinha aquela picada. E eu carregando a minha pequena mala atrás dos meus pais. Começava a chover. Tormento maior. Chegava à estrada para a Guarda feito um pinto. Encharcado. A camioneta demorava a aparecer na ponte sobre o Mondego. O frio era grande. O frio secava a roupa.

Agora anda-se mais depressa. Chego presto à entrada da aldeia onde fica a casa de pedra que era dos meus avós. Paro. Paro, escuto e olho. Tanta coisa de que me lembro. É um filme que perpassa pleno de memórias. De memórias feito. Avanço. Dentro em pouco estou no cemitério. Estaciono o carro. Atravesso a porta do jazigo. Os caixões lá estão como os deixei o ano passado.. O silêncio é ingente. Há silêncio embora havendo gente. Lá estão o que resta da minha mãe e dos meus avós. E resta muito. Muito. Tudo está colado à minha memória. Deixo flores, muitas flores. Quero-os deixar floridos. Saio ruído pela saudade. Tanta saudade avó Jacinta! Mãe Carmen. Avô Brás. Agora lembro-me de tudo. De tudo o que comunguei convosco. Fecho a porta. Sei que ficam bem. Regresso a Coimbra com a alma cheia. Vou ao cemitério da Conchada. Ali está o meu neto, muitos entes queridos e o meu pai. Mais uma jornada de estórias e memórias. Repito os rituais. Deixo flores. Muitas flores. Eles adoram flores. Dão cheiro aos restos. A tudo o resto que me avassala o espírito.

Terminou a jornada. O que ficou? O cansaço e tudo o que aprendi das viagens longas que fiz com todos eles. E as flores. Sempre as flores. «Bem ajam» as flores.


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