Gosto imenso dos artigos semanais de Pedro Mexia na revista do Expresso, pelos conteúdos que encerra, pelo discurso escorreito, por vezes, brilhante e perceptível.
No último jornal postou um escrito, sob o título, Espião do Tempo, que me fez regressar ao passado já longínquo e às provas orais dos exames que efectuei no Liceu Nacional da Guarda. Os professores de alguns júris, usavam uma ampulheta para controlar o tempo. Os nossos olhos estavam sempre a controlar a duração através da areia fina que se ia esfumando da campânula superior para a inferior. Como é possível ter subestimado este aparelho, senhor do tempo!
Diz Pedro Mexia:
Aquela areia que escorre entre duas campânulas de vidro através de um orifício estreito, levada pela força da gravidade é a imagem símbolo do tempo. Um poeta chamou a este objecto a ampulheta, espião do tempo e ministro do pensamento…Tenho dificuldades com noções demasiado abstractas, e, a ampulheta, a sua presença numa mesa ou estante, permite que me relacione de alguma maneira com a mais abstracta de todas, o tempo. Um tempo que, neste caso, não é o da natureza, nem o dos relógios, um tempo a meio do caminho entre o facto e a ideia.
Continua o autor:
Ernest …, no seu admirável tratado sobre as ampulhetas…distingue três espécies de relógios: os cósmicos, como os relógios de sol (na verdade de sombra); os telúricos ou elementares, como as ampulhetas; as clepsidras (o roubador de água) e os feéricos relógios de fogo; e os relógios mecânicos, já sem correspondência com a natureza…
E, agora, Pedro, fala de Santo Agostinho, um dos meus pensadores preferidos.
Numa fórmula famosa Santo Agostinho disse que sabia o que era o tempo quando não lhe perguntavam, mas não quando lhe perguntavam. Para mim, a ampulheta é como a não resposta de Agostinho, continua Pedro. E argumenta, apoiado no Santo: aquela areia que escorre entre duas campânulas de vidro através de um orifício estreito, levada pela força da gravidade, é a imagem – símbolo do tempo, não apenas do tempo que passa, mas do tempo que falta, que se esvai sem remédio, ou do tempo que foge sem desaparecer, que continua depois de nós, assim alguém dê a volta e reinicie o processo….
Bonita frase, vinda de quem vem: Santo Agostinho.
Mas será que existe, nesta sociedade carunchosa, Um Tempo A Meio do Caminho Entre O Facto E A Ideia?
Qual tempo?