É sempre importante revisitar os sítios esconsos onde estão subestimados alguns livros da nossa pequena ou grande biblioteca
Olhem meus amigos, encontramo-nos em plena guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Pois fui desencantar, um livrinho com uma história popular ucraniana, impresso na Rússia (URSS) em 1979, pela Editora Malich de Moscovo. Os desenhos deste aprazível livro são da autoria de E. Bulátov e de O. Vassíliev, a tradução de Vladimir Baránov
Principiemos, então, a contar a história.
Um velho percorria, seguido pelo seu cão, um mato ucraniano. No meio do percurso deixou cair, sem dar por isso, uma das suas luvas bem fofinhas que o livravam do frio rigoroso que no lugar se fazia sentir.
Um ratinho, chamado Roe-Roe, que saltava por ali perto, olhou a luva e verificou que seria um agasalho perfeito para si, ou melhor a sua casa futura. Ainda não tinha arrumado o seu novo aposento, bateu-lhe à porta a Rã – Que – Canta tremendo de frio. Perguntou: – Quem vive aqui? – Sou o ratinho Roe-Roe. – E tu quem és? Sou a Rã – Que – Canta. – Deixas-me entrar? – Entra.
Passados uns dias rondou a luva a Lebre Saltona. Pediu para a deixarem entrar. Ouviu lá de dentro a anuência para tal.
Já eram três para tão reduzido espaço. Compartilharam – no em plena harmonia e viviam contentes.
Os dias seguintes foram agitados na luva – casa, pois apareceram a pedir asilo a Comadre – Raposa, o Lobo – Cinzento, o Javali Dente – Forte e o Dom-Urso. Todos foram autorizados a entrar.
São já sete, dentro da luva, e estão tão apertados que a luva por pouco não rebenta! A todos foi concedido asilo – um gesto de grande solidariedade. Com condições, no entanto: de não haver brigas, todos trabalharem para o bem comum e cumprirem o preceito «todos diferentes todos iguais» [as magnificas gravuras dão conta de tudo isto].
Entretanto, o velho viu que andava sem a luva. Regressou a procurá-la. O cão, seu acompanhante, correu à frente do velho – correu, correu e viu: a luva no chão e a mover-se. O cão achou estranho: fez, – ão-ão-ão!
Os animais ficaram assustados, saltaram para fora da luva e puseram-se em debandada pelo mato.
Chegou o velho e apanhou a luva.
[infelizmente o mundo funciona assim: quando alguém quer construir uma sociedade justa, os poderosos debelam – na, com um simples ão-ão-ão!
Quem diria que estaríamos a contar, hoje, oriunda do interior da Ucrânia, [em tempos de guerra], esta história ancestral interpretada por animais tão distintos?!…
Lição final: – não deite livros fora. Um dia serão precisos.