O sofrimento é o que nos faz dar valor à vida.
Talvez esta frase feita, e abundantemente escrita, seja uma das que comanda, mais amiúde, a vida dos velhos em Portugal. Colocaria, ainda, duas outras situações: a falta de saúde e a solidão, as duas ligadas intrinsecamente entre si. Neste contexto, não admira que sejam os mais «mendigadores» do SNS.
Vamos todos viver mais anos, é, pois, imprescindível marcar avanços na saúde, na organização das cidades, na vida social. É preciso dar voz e força ao envelhecimento activo. Não bastam palavras, é preciso tudo fazer para ajudar na manutenção da capacidade funcional destes cidadãos.
A Estratégia Nacional Para O Envelhecimento Activo e Saudável 2017-2025, passa pela promoção de estilos de vida saudáveis e vigilância da saúde, segurança, educação e sinalização de pessoas em situação de vulnerabilidade. Muito bem. Só que das palavras aos actos vai uma longa distância. Por isso, nesta circunstância, a execução do programa, já quase no fim do seu intervalo temporal, poucas esperanças e perspectivas abriram aos idosos.
Quase um terço da população portuguesa tem mais de 65 anos. Portugal é um dos países mais envelhecidos da UE.
Uma notícia postada no Diário de Coimbra revela exatamente isso, ou talvez mais, e afirma que vivemos na região mais envelhecida do país pesando isso, dramaticamente, na saúde. Nessa informação revelam-se números trágicos: 2 velhos para cada jovem. Acrescente-se que 82 anos é a esperança de vida e, para desespero dos estudiosos, 1,2 filhos é a média de cada mulher entre os 15 e 49 anos. Tudo isto de acordo com os últimos censos de 2021. Tragédia nacional. Olhe-se em redor, com este assunto poucos políticos se preocupam e raros comentadores lhe dão visibilidade. Por que será?
Segundo a mesma fonte, as doenças predominantes nos velhos são alterações do metabolismo, a hipertensão, as perturbações depressivas, a obesidade e a diabetes. As doenças do aparelho circulatório, cárdio e cérebro vasculares, são aquelas que mais impacto têm na sua mortalidade, sobretudo, acima dos 75 anos.
Retirem-se as conclusões políticas, sociais e culturais de hoje para que não se pereça, como país, já amanhã.
Mas mais se pergunta: onde irão viver e como irão sobreviver, nos seus últimos anos de existência, todos estes homens e mulheres?
Vêm à praça publica, vejam-se, por exemplo, notícias postadas em alguns dos diários e semanários deste país, onde explodem dados de lares encerrados, todos os anos, por falta de condições ou clandestinidade. São, de imediato, analisadas as razões da sua existência ilegal, promete-se agir e punir os responsáveis. E depois? Quase nada é assertivo. Tudo se veícula a palavras vãs. Concluído o alarido, fica tudo quase na mesma.
Em muitas instituições, na realidade, a forma como os idosos são tratados é uma indignidade. Como se tratam pessoas desta forma, já que hoje sem capacidade ou vontade de reagir!…
Políticos deste país, há que fazer muito mais no quadro da fiscalização, no âmbito da criminalização, na denunciação atempadamente dos maus-tratos. Por outro lado, é sinistro que tantas famílias e, por vezes, as próprias comunidades onde os velhos estiveram inseridos e para elas trabalharam, se demitam de dar melhor apoio aos seus pares com mais idade, silenciando e negligenciando casos e malfeitorias
Enquanto assim tudo permanecer, o sofrimento recai sobre eles, mas a ignomínia é nossa. É de toda a sociedade portuguesa. Vergonha.