I
O que vou fazer hoje? E amanhã?
Amanhã, como correrá o meu amanhã?
Não há ninguém que não se interrogue sobre tal.
Recordo-me como se fosse hoje do dia de amanhã, de tantos dias de amanhã.
Recordo-me da ocasião que ainda não era ocasião.
Recordo-me como se fosse hoje do antes que retardava em ser retardado.
Recordo-me de descurar o que olvidei de ter olvidado.
Quantas outras à´manhãs poderiam descrever infinitos.
II
E hoje?
É o bebé que nasceu, o seu choro.
O amanhã que desponta,
E que se agarra ao meu ontem.
E amanhã?
Sou eu que vou de mão dada às memórias.
Que morri, sem o chão, sem as minhas histórias.
III
O amanhã é incerto, místico, de rituais sonhados.
O amanhã é esperança, também desesperança.
Não duvido da força do tempo.
Então retome-se o amanhã.
É preciso viver o hoje como uma afirmação, amanhã será sempre uma interrogação.
Não tenho muito medo do amanhã, já vivi o passado soturno e o presente quedo.
Ontem foi o lugar do passado. Hoje o lugar do real. Amanhã, o lugar do nada, do virtual.
Amanhã poderá haver um amanhecer escuro.
Amanhã posso ficar no meio do nada, ou no meio de tudo.
A morte enviará o Sol.
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Nenhuma das fases anteriores descreve tão bem, o dia de hoje como a prosa criativa de Mia Couto. Por isso, com a devida vénia, aqui a transcrevo:
“- Fica-te tão bem o dia que trazes. Onde é que o arranjaste?
– Fui eu que fiz. Já me aborreciam os dias sempre iguais, sempre a mesma coisa, e resolvi arriscar um toque personalizado.
– E como fizeste?
– Aproveitei coisas que tinha e a que voltei a dar uso. Subi as bainhas da manhã para deixar entrar mais claridade e bordei uns pontos de exclamação nos bolsos para ter sempre à mão maneira de me espantar com a beleza da vida. Descosi velhos hábitos e teci algumas considerações importantes, como a de apanhar as malhas caídas dos dias com força de vontade e coragem. Depois, junto à fímbria da noite, deixei abertos uns rasgos de imaginação e prendi os sonhos com colchetes de luz à esperança num mundo melhor.”
Bonito.
No entanto, ficou muito por dizer…
“[…] conhecemos milhões de dados sobre o mundo em que estamos, mas quase nada sobre o mundo que somos, o planeta psíquico”. Augusto Cury.