23 de Maio de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

TESTEMUNHOS: Ontem, hoje e amanhã? A Interrogação imperfeita

13 de Outubro 2023

I

O que vou fazer hoje? E amanhã?

Amanhã, como correrá o meu amanhã?

Não há ninguém que não se interrogue sobre tal.

Recordo-me como se fosse hoje do dia de amanhã, de tantos dias de amanhã.

Recordo-me da ocasião que ainda não era ocasião.

Recordo-me como se fosse hoje do antes que retardava em ser retardado.

Recordo-me de descurar o que olvidei de ter olvidado.

Quantas outras à´manhãs poderiam descrever infinitos.

II

E hoje?

É o bebé que nasceu, o seu choro.

O amanhã que desponta,

E que se agarra ao meu ontem.

E amanhã?

Sou eu que vou de mão dada às memórias.

Que morri, sem o chão, sem as minhas histórias.

 

 

 

III

 

O amanhã é incerto, místico, de rituais sonhados.

O amanhã é esperança, também desesperança.

Não duvido da força do tempo.

Então retome-se o amanhã.

É preciso viver o hoje como uma afirmação, amanhã será sempre uma interrogação.

Não tenho muito medo do amanhã, já vivi o passado soturno e o presente quedo.

Ontem foi o lugar do passado. Hoje o lugar do real. Amanhã, o lugar do nada, do virtual.

Amanhã poderá haver um amanhecer escuro.

Amanhã posso ficar no meio do nada, ou no meio de tudo.

A morte enviará o Sol.

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Nenhuma das fases anteriores descreve tão bem, o dia de hoje como a prosa criativa de Mia Couto. Por isso, com a devida vénia, aqui a transcrevo:

“- Fica-te tão bem o dia que trazes. Onde é que o arranjaste?

– Fui eu que fiz. Já me aborreciam os dias sempre iguais, sempre a mesma coisa, e resolvi arriscar um toque personalizado.

– E como fizeste?

– Aproveitei coisas que tinha e a que voltei a dar uso. Subi as bainhas da manhã para deixar entrar mais claridade e bordei uns pontos de exclamação nos bolsos para ter sempre à mão maneira de me espantar com a beleza da vida. Descosi velhos hábitos e teci algumas considerações importantes, como a de apanhar as malhas caídas dos dias com força de vontade e coragem. Depois, junto à fímbria da noite, deixei abertos uns rasgos de imaginação e prendi os sonhos com colchetes de luz à esperança num mundo melhor.”

Bonito.

            No entanto, ficou muito por dizer…

 

“[…] conhecemos milhões de dados sobre o mundo em que estamos, mas quase nada sobre o mundo que somos, o planeta psíquico”. Augusto Cury.


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