Os Cravos Murcham? Alguns entristeceram.
Parece que foi ontem. Sei da alegria que senti nesse dia, quase no final de uma longa comissão de serviço na guerra colonial, longa e esforçadamente perigosa. Nunca poderei esquecer esse entusiasmo infundo que me percorreu o corpo e a alma. O meu exaltamento pressentiu o fim da guerra, o fim do sacrifícios dos soldados, aqueles jovens humildes, quase todos pobres, muitos quase analfabetos, também quase meninos, arrancados p´la força da obrigação ao seu torrão natal e às famílias que, permanentemente, os choravam.
Como o tempo passa 25 de Abril!
Lembras-te bem de que antes de ti, havia censura. Apreendiam-se livros, discos, jornais, revistas. Agentes mais ou menos analfabetos confiscavam ou riscavam artigos, sempre que colocavam em cheque o seu ídolo Salazar ou os seus querubins., num conspurco concurso nacional de boçalidade.
Existiam detenções arbitrárias. Prendiam-se jovens adolescentes com 16 anos, com 15 ( ainda crianças na verdade ); estou a pensar, no Alfredo, meu amigo, preso com outros estudantes de Liceu, no dia em que Humberto Delgado foi à Guarda. Foi levado para a sede da PIDE, fizeram-lhe preencher uma ficha, de acordo com as suas opiniões, ameaçaram-no, dormiu lá uma noite. Tudo isto porquê, pronunciaram eles: “por constituir ameaça à segurança do Estado.” Imbecilidades das ditaduras.
Penso em muitas coisas penosas, por exemplo, na interrupção violenta de uma vigília na Capela do Rato, setenta pessoas presas…
Antes de ti, 25 de Abril, havia tortura. Havia prisão sem julgamento. Havia medo nas entranhas de cada um. Havia expulsões sumárias da carreira pública, brutificação infindável para quem pensava e se exprimia de forma diferente dos ditames da ditadura e do Estado Novo.
Já dissemos, havia guerra colonial. Emigração em massa. Pobreza tamanha.
Quando chegou aquela madrugada, «o dia inicial inteiro e limpo», eras tu 25 de Abril, ainda pequenino, nem uma arma defendeu a ditadura sonâmbula. Em poucas horas, esfumou-se como se nunca tivesse existido.
Depois…Muitos te expurgaram, espoliaram, dos mitos e dos ritos que te inspiraram. Às mãos de mentirosos ditos, às armas de promessas vãs, corrupção, pobreza e actos de vilão, mancharam-te os cravos da nossa dedicação.
Apesar de tudo isso., ainda permaneces vivo : A LIBERDADE existe. A DEMOCRACIA subsiste. Salvé.