4 de Agosto de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: Chaplin, um génio-ator

1 de Abril 2021

A pandemia que estamos a viver quase nada de bom me trouxe. Permitiu-me, apenas, escrever alguns artigos, um livro, e reviver memórias pessoais, algumas bem pouco estimáveis. Também revisitar uma sub-cave onde se situa a minha biblioteca de há muitos anos. Ali repousam livros de cinco gerações. Tudo o resto a covid levou.

Todos acautelamos pequenas e grandes memórias que nos acompanham durante anos. Fazem o nosso caminho ao longo da vida. Não admira, pois, que dessas visitas, e na secção dos livros e outros afins mais antigos, vá encontrar pinturas, livros e cassetes com filmes. No seu conjunto abarcam diversas áreas da arte: pintura, literatura e cinema de alguns génios universais como Van Gogh, Dostoiévski, e Chaplin. Este último foi o que mais estreitamente esteve ligado à minha vida, pois, em ações de dinamização cultural (como se dizia após o 25 de Abril), muitas vezes utilizei os seus filmes, em diversas aldeias deste país, para motivar e conscientizar os seus habitantes a associarem-se ao novo regime democrático. Por este motivo, escolho para meu primeiro interlocutor o ator-génio Chaplin. Os outros dois poderão ficar para artigos posteriores.

Charles Chaplin (1889-1977) foi um ator, dançarino, diretor e produtor inglês, criador de cerca de 18 filmes. Viveu parte da sua infância num orfanato sendo depois transferido para uma escola de crianças pobres.

Ficou conhecido por “Carlitos”. Foi o mais famoso artista cinematográfico da era do cinema mudo. Ficou celebrizado pelas suas mímicas e comédias. Em 1894, com apenas cinco anos, Chaplin subiu ao palco.

Em 1915 produziu a comédia “The Tramp” (O Vagabundo) quando criou a sua afamada figura – «o vagabundo Carlitos». Foi esta personagem que mais marcou a sua carreira. Um andarilho pobre, com as maneiras requintadas e o decoro de um gentil-homem, vestido com um casaco esfarrapado, calças e sapatos desgastados e mais largos que o seu número, um chapéu de coco, uma bengala e seu inconfundível bigode. O personagem, ao mesmo tempo humilde e distinto, passou a ser a figura central de diversos filmes de Chaplin. Com este seu personagem, “Carlitos” criou filmes com uma amálgama de humor, poesia, enternecimento e crítica social e política.

Outro filme inesquecível, The Kid (O Garoto, 1921), conta a história de um bebé que acaba ficando aos cuidados de um vagabundo. Uma obra de comoção dramática. Talvez seja um dos títulos mais universais da obra de Chaplin. A sua estreia ocorreu há um século, no dia 21 de Janeiro de 1921, no Carnegie Hall de Nova Iorque.

O tema da miséria, da penúria e pobreza, é transversal na obra de Chaplin, endereçando para memórias da sua infância em Londres.

Em 1927 chega o cinema falado. Chaplin contestou o novo modelo de fazer esta arte, e continuou a conceber obras-primas baseadas nas suas mímicas. De entre elas salienta-se: City Lights (Luzes da Cidade, 1931) que conta a história do vagabundo que se finge de milionário para impressionar uma florista cega, pela qual se apaixonou; Modern Times (Tempos Modernos, 1936) que critica a mecanização da modernidade e a exploração do operariado.

O primeiro filme falado de Charles Chaplin foi The Great Dictator (O Grande Ditador), lançado no dia 15 de Outubro de 1940. Este apresenta uma sátira ao nazismo e ao fascismo. Recebeu cinco indicações para Oscar em 1941, nas categorias de melhor filme, melhor ator para Charles Chaplin, melhor roteiro original, melhor pegada sonora e melhor ator coadjuvante, Jack Oakle.

Apesar da grande popularidade de Chaplin, e do sucesso de seus filmes, muitas de suas ideias eram incompatíveis com os setores conservadores da sociedade norte-americana. Abandonou os Estados Unidos. Em 1972 o artista regressou para receber o Prémio Especial da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Em 1975 foi agraciado pela Rainha Elizabeth II com o título de Sir. Faleceu em Corsier-sur-Vevey, Suíça, no dia 25 de dezembro de 1977.

Obrigado Chaplin. Foste um dos meus inspiradores. Os teus filmes ajudaram muita gente das aldeias remotas portuguesas a compreender a democracia e a objetar a ditadura. Quantos não serviram para sensibilizar à aprendizagem da escrita, da leitura e do ato de aprender a fazer contas, num país onde o analfabetismo era regra!


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