No dia 28 de Maio transacto desloquei-me à Lousã, na companhia da minha mulher, para participar, a convite do actor Diogo Carvalho, no Espectáculo de Teatro e Música 50 Anos de Abril.
O evento teve lugar numa tenda, chamar-lhe-ia, multiusos, pertença da Escola Profissional da Lousã, integrada no vasto, diversificado e meritório programa da Câmara Municipal, com o intuito de comemorar os 50 anos do 25 de Abril.
. Este espectáculo foi reproduzido em Picture-in-picture e os alunos desta escola foram os obreiros da sua transmissão em directo para o You Tube. Fiquei bem impressionado com o material tecnológico que utilizavam e a forma ágil como o manejavam. Um bom exemplo de como se pode fazer uma formação eficiente e treino em acção. Faço ainda outra menção aos alunos da escola. Muitas dezenas a assistirem: interessados, atentos, entusiasmados. Assim merece a pena dar o melhor de nós em prol da seu esclarecimento e novos saberes.
Os 50 anos do 25 de Abril devem ser uma ocasião de passagem de testemunho, dos que lutaram contra a ditadura e construíram a Democracia aos que nasceram em Liberdade. Devem ser o incentivador de uma consciência colectiva de cidadania – a base para construirmos os próximos 50 anos também em Democracia, já que nenhuma das conquistas de Abril pode ser dada por adquirida.
Estes alunos, dentro do possível, viveram e adquiriram esse testemunho.
No final do espectáculo, – e aqui começa a maior razão que me levou a escrever este simbólico artigo, – uma técnica da Câmara veio ofertar-me um saco com algumas lembranças. A minha curiosidade não contida, levou-me, de imediato, a investigar o conteúdo da dádiva. As mãos coscuvilheiras e os olhos atentos e bem abertos, acarretaram, cá para fora, um conjunto de 12 cartões (fazedores de história) bem organizados em torno de uma capa bem condizente. Cada um deles expunha, de um lado um poema de Abril, do outro fotografias dos dias de Abril na Lousã de há 50 anos.
Fiquei estarrecido com a criatividade exposta. Memórias de valor incalculável estão ali plasmadas.
Traz outro amigo também de José Afonso, Liberdade de Sérgio Godinho, Liberdade de Miguel Torga, 25 de Abril de Carlos Carranca, Ronda do Soldadinho de José Mário Branco, Credo de Natália Correia, 25 de Abril de António Arnaut, O futuro de José Carlos Ary dos Santos, A longa noite (Abril) de Jorge Cortez, Mulheres do meu país de Maria Teresa Horta, Revolução de Sophia de Mello Breyner Andresen e Abril de Abril, de Manuel Alegre, constituem um cardápio de enorme valor testemunhal.
Carlos Carranca de quem fui amigo, há muitos anos, fruto da então actividade profissional é um dos poetas seleccionados. Aproveito para lhe prestar a minha homenagem, reproduzindo o seu poema.
25 de Abril
Desprende-se o silêncio
e liquefeita
a luz franqueia o seu caminho.
Rasgam-se as fontes
os pássaros volteiam
há deuses a florir – taças de vinho.
Contornos de ausência – luz primeira.
Desprende-se o silêncio
e há luz e há água e há deuses e
pássaros, vinho.
Lindo.
Com a devida vénia à Câmara Municipal da Lousã.