21 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

TESTEMUNHOS: As Instrumentalizações Sobre imigrantes

2 de Fevereiro 2024

O Negrume De Um Bidonville

Esta semana fui a um centro comercial da cidade e sentei-me numa das esplanadas interiores, por sinal, bem agradável. Bebia o meu café, serenamente, eis senão quando, na mesa ao lado se plantaram três jovens – um rapaz e duas raparigas – por sinal «bem apressurados» e vestidos com roupas de marca das bem cotadas no mundo da moda e do vestuário. Reparei que havia entre eles uma discussão bem afiada sobre migrações e seus problemas para o país.

Uma das raparigas tinha um discurso bem assertivo e crítico relativamente à imigração para Portugal. Como é uma temática que me interessa, afinei o ouvido. Muitas coisas que lhe ouvi dizer retiraram-me do propósito sereno de desfrutar um bom café. De entre elas relevo duas : que os imigrantes vinham retirar empregos aos portugueses, e que não estava disposta a conviver com pés-descalços provenientes da Índia, Paquistão, Brasil e de outros países «mixurucas». E acrescentou: sabem, é por estas e por outras que vou votar no CHEGA, Ó, Ó…QUE VOU!

            Ouvi, isto e muito mais, e fiquei siderado, indignado. Tinha vontade de perguntar a essa menina se estava com vontade de ir apanhar azeitona, fruta ou uvas, porventura cavar a terra, por esse país além. Ou então, em alternativa, trabalhar duro na construção civil, viver em contentores com condições miseráveis, ou em quartos partilhados por quatro pessoas, receber salários de miséria e trabalhar 12 horas por dia…Enfim ser escrava!

Os estrangeiros vêm substituir portugueses no trabalho? Não. Os portugueses, como esta menina, e, tantos outros, não querem estes ofícios. Logo, só podem contribuir para colmatar a falta de mão de obra, tornar mais jovem a nossa população, tão envelhecida, e atenuar a pressão em que se encontra a segurança social.

Nos últimos anos, a população imigrante tem crescido consideravelmente em Portugal. Ainda bem. Segundo os dados mais recentes, os imigrantes constituem cerca de 7% da população portuguesa, o que revela um aumento de 3% desde o final da década de 2000.

O número de imigrantes a viver em Portugal em situação legal quase duplicou na última década, mostram os dados divulgados pela Pordata (base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos). Só no ano passado entraram no país 118 mil imigrantes – o número mais elevado desde que há registo. E seis em cada dez têm entre 15 e 44 anos. Quase um terço (31%) vive em situação de pobreza ou de exclusão social.

Quando me levantei da cadeira revisitei as minhas memórias e pensei se Portugal alguma vez poderá ser ingrato para com os imigrantes, quando foi sempre um país de emigrantes. E mais. Estou convicto de que haverá, ainda hoje, poucas famílias que não tenham algum parente nessas circunstancias.

Entre os finais dos anos 50 e o princípio dos 70, cerca de um milhão de portugueses emigrou para França. Muitos instalaram-se em bairros de lata que rodeavam Paris, conhecidos como Bidonville.

Os “bidonvilles” nos arredores de Paris albergaram milhares de portugueses que nos anos 60 trabalharam na construção civil. Vidas muito difíceis que devem permanecer na memória das velhas e novas gerações lusas.

            Mas não permanecem. A memória, infelizmente, neste país é curta.

 


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