Fui passar uns dias à Praia do Pedrógão, a minha praia de há muitos anos. Fui ver o seu mar azul, bravo, reconfortante, amigo meu.
Sempre que aí albergo, também me desloco à Praia da Vieira.
Foi nestas duas praias que encontrei dois alfarrabistas (para espanto meu!) expondo os seus livros para os veraneantes, por sinal, e pelo que vi, pouco interessados na matéria. Infelizmente.
Deliciei-me com a situação e, por perto, passei algumas horas, folheando livros, sabe-se lá de quem, vendidos quiçá ao desbarato, porventura ao kilo, como já se usa. Muitas vezes são os herdeiros aculturados, para se verem livres do que apelidam de «monos», sem respeito por quem os leu e guardou como relíquias, por vezes familiares íntimos. Como é possível tomar estas decisões, impensadas, quando havia alternativas bem mais altruístas, como as doações a instituições ou a pessoas singulares?
Comprei vários exemplares, alguns bastante antigos, cheios de considerações à margem, sublinhados e autografados. E querem crer, muitos, a 1 euro. Impensável.
De entre eles o livro de João de Barros (nome da rua onde moro no Pedrógão), “O Descobrimento da Índia ( Ásia, Década I, livro IV)”, com prefácio de Rodrigues Lapa, dado à estampa, como 2ª edição, em 1943, autografado por uma Maria, e mais não digo para não comprometer quem o vendeu.
Como todos sabem, estes livros de João de Barros têm um valor sobejo e, como tal, não tive dúvidas em adquirir um exemplar de imediato. Volto a repetir, por 1 euro.
Abrindo o livro e folheando-o, testemunhamos que se encontra anotado e sublinhado a lápis ao longo do seu paginamento.
As anotações, evidenciam que quem as fez está dentro da arte linguística. Os sublinhados, vislumbram um leitor que sabe distinguir a substancia da vulgaridade.
Agora, caiu nas minhas mãos, vou guardá-lo, religiosamente, respeitosamente, abrigando a memória de quem soube tirar dele todos os ensinamentos .
Para aguçar o apetite dos leitores aqui deixo uma pequena passagem do livro, é claro, em português arcaico, já que a escrita foi feita lá por volta de 1552 a 1553.
“[…] no seguinte dia, que era sábado, oito de Julho, por ser dedicado a Nossa Senhora, e a casa de muita romagem, assi por esta devação como por se irem espedir dos que iam na armada, concorreu grande número de gente a ela. E, quando foi ao embarcar de Vasco da Gama, […] foi de tanta lágrima […] donde com razão lhe podemos chamar praia de lágrimas pera os que vão, terra de prazer aos que vem […] tôdolos que estavam prontos na vista dêles, com ûa piedosa humanidade dobraram estas lágrimas e começaram de os encomendar a Deus e lançar juízos, segundo o que cada um sentia daquela partida.[…].
Aqui fica também a figuração da capa do livro. Talvez nos faça repensar a forma como os devemos tratar.