24 de Setembro de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos: A Covid-19 e a conversa da treta

29 de Abril 2020

Desde os tempos da ancestralidade que o homem, periodicamente, tem lutado arduamente contra vírus diversos que vieram a provocar, nalguns casos, um número bastante elevado de mortes, por vezes, contabilizados na ordem de milhões.

Era evidente que mais tarde ou mais cedo isto ia acontecer; também não podíamos fazer muito para evitar que acontecesse afirma António Sarmento. “É um vírus novo, para o qual não havia vacina e com o qual o ser humano nunca contactou. Logo não tem imunidade natural.” Encontrou a humanidade desacautelada. Se, ao menos, a taxa de contágio fosse muito pequena, as coisas podiam não ir muito além. Sempre que essa taxa é maior, não é possível. Os vírus particularmente os respiratórios, como é o caso, têm uma vida, uma biologia, uma cinética que ainda conhecemos mal. Aparecem quando querem. Inesperadamente há uma expansão, alastram-se e depois ciclicamente e muitas vezes por motivos que também não conhecemos, inteiramente, desaparecem. Existe todo um universo microscópico, de vírus e bactérias que existem na terra há muitos mais anos do que nós, e que têm um conhecimento, uma plasticidade genética, uma capacidade de adaptação feroz. Muito antes de existirem os mamíferos, os seres humanos, já os micróbios viviam. Implica isto que encerram um conhecimento genético do mundo muito grande.

Todas estas considerações acima postadas resultam dos saberes de quem estuda, aprofunda, logo, conhece as limitações do homem. Como todos os investigadores, sempre à cata de soluções é humilde nas palavras. Continuamos a citar, neste caso concreto, António Sarmento.

Das suas sábias palavras podemos inferir que em nenhuma doença transmissível, sabemos tudo. Do que está a acontecer, infiro do que disse, só enxergamos a ponta do iceberg. E isto é tão verdade que medicamentos para a malária, ébola e VIH já estão a ser usados nos hospitais com autorização da DGS. O Discovery, um grande ensaio clínico europeu, está a testar estes fármacos em 3200 doentes de vários países.

Mas afinal o que é um vírus, todos sabemos ou pensamos que sabemos?

Jorge Calado, outro notável pensador, desvenda-nos o indispensável: “Ao contrário das bactérias, os vírus não são organismos vivos, são meros novelos de material genético num invólucro de proteínas. Sozinhos, não se reproduzem. Para funcionarem e se replicarem tem de infetar células vivas… como não os vemos, ouvimos, cheiramos e sentimos são inimigos perigosíssimos e difíceis de combater… temos de nos afastar uns dos outros em vez de nos juntarmos, será separados que venceremos”.

Como estamos perante um indivíduo quase desconhecido, os cientistas e os responsáveis políticos têm de congeminar, a cada momento, de acordo com o conhecimento que se vai adquirindo face ao comportamento do inimigo formas de o apartar: isolamento social, máscaras, luvas e outros apetrechos de proteção. Serão os adequados? Não se sabe, é preciso estudar mais e sempre mais. É necessário aperfeiçoar as armas a cada momento…

Nas minhas despretensiosas suposições, presumo que a Covid-19, na intimidade da sua «inteligência», encontrou caminho fácil, com a globalização desregulada que se vive hoje e com o descuido do homem, pois considera-se super sábio por ter na mão um telemóvel de última geração ou um computador que lhe transmite toda a erudição. Supõe que resolve tudo. O vírus é mais perspicaz que este homem embalado no consumo, nas viagens sem fim e na cibernética sem rosto e muitas vezes sem fins.

Mas mesmo depois do desastre há quem se arrogue em saber tudo e tudo resolver

Uma das características mais marcantes da atual cultura é estar impregnada daquilo a que apelidamos de conversa fiada. Ela existe e prolifera nos mais diversos canais, meios e formas de comunicação. Utiliza um formato de linguagem presunçosa, abusiva e propositadamente enganadora. E muitos acreditarmos e distribuirmos pelos nossos amigos…

A conversa fiada, na qual muitos dos ditos cultos acreditam, é um tipo de discurso que pretende disfarçar a ignorância de quem o produz, ou com que se pretende enganar quem o ouve.

Há expressões equivalentes como lábia, conversa da treta, subterfúgios, conversa de chacha ou de merda, peço desculpa. Também logro, deturpação, conversa sem sentido, lengalenga, disparate, desonestidade, impostura ou charlatanismo. Enfim, criação de uma ideia falsa.

A conversa fiada é estimulada sempre que as obrigações de uma pessoa ou as oportunidades que lhe dão para falar de algum assunto são maiores do que o seu conhecimento dos factos e temas que acontecem. É ter opinião acerca de tudo. (para saber mais é ler Harry G. Frankfurt).

Não é por acaso que um sem limite de opinadores da rádio, televisão, das redes sociais, principalmente, tudo sabem. É uma forma de atingir o estrelato, para, porventura, conquistar a benquerença de quem os pode guindar a outros firmamentos.

O facto é que o Corona não se assusta com estes ditos, mas alguns portugueses sim, ou, pelo contrário não, facilitando a divulgação ou culpabilizando outros.

A Covid-19 agradece a conversa da treta. Eu detesto-a.


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