4 de Agosto de 2021 | Coimbra
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ANTÓNIO INÁCIO NOGUEIRA

Testemunhos – A Arte Xávega: o mito turístico de muitas praias

9 de Julho 2021

Os pescadores da Xávega eram, efetivamente, os heróis do mar, bravos, corajosos, vivendo o dia-a-dia com o oceano traiçoeiro. Cada lanço era uma pequena expedição de cerca de uma hora, que se iniciava, com o extraordinário espetáculo da largada, – o ala-abaixo do enorme barco puxado pelos bois, à espera do instante menos perigoso após a onda, em que ele rompe, para já vogando, enfrentar logo a seguir a nova onda, que lhe ergue a proa ao alto.

Aparelhar o barco era obra de artistas. No seu interior tudo era meticulosamente organizado. Bancos, estribeiras, pranchas, cordas, remos, etc, tinham rigorosamente o seu lugar e a sua função. Ninguém arrisca descurar estes procedimentos. Quem o fizer está sujeito a sanções que todos conhecem bem:

Cada membro da tripulação tem o seu lugar, e a rede vai arrumada segundo preceitos lógicos rigorosos e sempre os mesmos; no fundo, o cabo terminal e a manga, seguida do saco que passa em volta da popa; depois a primeira manga, cortiças de um lado, chumbos do outro bem alinhados; e, finalmente, a outra manga e o cabo inicial – de modo a permitir o seu lançamento conveniente e desembaraçado.

O barco sai deixando em terra a ponta desse cabo inicial a mão-de-terra, a qual se vai desenrolando de bordo à medida que o barco se afasta, até ao ponto que ao arrais pareça conveniente para cercar, geralmente a dois quilómetros da costa; o barco então vira, à ordem gritada do arrais; e, pelo calador ajudado por um dos remadores da ré, a primeira manga é lançada já paralelamente à costa, até que, «Com Deus ao mar!», se atira o saco; depois segue a outra manga; posteriormente o grito terra, e é o regresso, largando-se de modo idêntico o segundo cabo, a mão-da-barca, cuja ponta chega à praia com o barco.

O barco regressa, a remagem é dura e o perigo pode ainda espreitar. As horas da largada e da arribagem são de tremenda emoção e expectativa. Há a bordo uma atmosfera de rigor descontraído, solto, um cheiro a liberdade com responsabilidade. Brinca-se, conversa-se, mas a coordenação e a cooperação na remagem são perfeitas. Há em redor a autoridade democrática e benévola do arrais, que se acata e respeita.

O barco chega a terra e depois, dizem os autores que temos vindo a referenciar, é a longa alagem da rede, que vem a arrastar pelo fundo para terra, puxada por cada um dos cabos, até à chegada do saco. Essa alagem, é feita por juntas de bois. O gado puxa os cabos, balizados por cadimes, até avistar o saco que se aproxima e finalmente chega, palpitante de pescado, no meio de uma desordem aparente e de uma corrida confusa de gado e gente, na qual, contudo, cada um está a cumprir um lugar necessário no conjunto, perante a expectativa da Companha, do fisco, dos negociantes (leiam-se António Inácio Nogueira, Fernando Galhano, Veiga de Oliveira).


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