SUSTENTABILIDADE | Tirar tecidos antigos da gaveta e mostrá-los ao mundo: é esse o objetivo da “Grita”, uma marca que combate o desperdício e aposta na moda sustentável. Criado, em 2024, por Cristina Garcia, o projeto procura que cada peça seja única e especial.
É em Serpins, no município de Lousã, que Cristina Garcia dá asas à sua imaginação. Entre toalhas de mesa, cortinas e lençóis, são vários os tecidos antigos e usados aos quais dá uma nova vida. Desde 2021, – altura em que aprendeu a costurar -, que se dedica a percorrer as feiras e lojas de velharias do país. O objetivo é claro: descobrir “pequenas-obras de arte fechadas em gavetas ou arcas” e mostrá-las ao mundo honrando quem as criou.
“Sempre me deu pena ver tecidos, como toalhas bordadas antigas, nas feiras ou casas onde costumo ir. São tecidos que podiam ter sido bordados pela minha avó ou pelas minhas tias. Às vezes dava-me uma dor no coração de os ver ali descartados e prontos a ir para o lixo”, conta Cristina Garcia, fundadora da “Grita”, em declarações ao “O Despertar”.
Nesse sentido, quando começou a costurar decidiu usá-los para criar peças únicas e diferenciadoras. Depois de três anos de aprendizagem, com um curso de iniciação à costura pelo meio, avançou para um projeto cujo nome não deixa margem para dúvidas. “Grita”, porque “é o meu grito de liberdade criativa; onde posso criar as minhas coisas e gerir o meu tempo. Uma espécie de escape”, afirma.
Marca enaltece o trabalho de várias mulheres
Atualmente, este é o trabalho a tempo inteiro de Cristina Garcia. É a ele que se dedica de corpo e alma, na certeza de que a “Grita” pode fazer a diferença a vários níveis. Por um lado, no que diz respeito a honrar quem criou os diversos tecidos que utiliza. “É um orgulho para mim imaginar qual seria a reação das pessoas se vissem que a toalha de mesa que estiveram a bordar agora é uma camisa. É isso que eu tento fazer: valorizar e enaltecer o trabalho das mulheres que bordaram e que trabalharam estes tecidos”, salienta.
Por outro, combater o desperdício e abrir portas à sustentabilidade. “A verdade é que a indústria da moda tem que mudar, porque está a destruir o planeta. Sabemos que a indústria têxtil é a segunda maior poluente do mundo. E, portanto, todos nós temos responsabilidade nisso e não podemos continuar a comprar roupa como compramos”, alerta.
A esse propósito, acredita que a “Grita” pode ter um papel importante no despertar de consciências, pelo menos, daqueles que se vão deparando com a marca. “Nós temos uma responsabilidade de mudar o mundo na nossa pequena microescala. Eu acho que é isso que temos todos: essa responsabilidade de tentar tornar o mundo um bocadinho melhor, nem que seja o que está à nossa volta”, defende.
Um propósito que tem sido bem sucedido, já que há cada vez mais pessoas a deixarem-se conquistar pelo projeto. “Eu acho que elas [pessoas] gostam de sentir que a ‘Grita’ é uma marca ecológica. (…) Ao comprarem aqui, sabem que aquela compra está a ter impacto, mesmo que o valor seja mais caro”, refere, acrescentando que “aqui, sabem que pagam mais, mas também sabem que não estamos a fazer mal ao planeta; estamos a respeitar os direitos dos trabalhadores e estamos a ajudar uma marca a crescer”.
“Grita” já chegou a vários países
O processo de criação de cada peça vendida pela “Grita” é longo e personalizado. A fundadora recolhe a maior parte dos tecidos em feiras e, por norma, estes vêm com nódoas e em mau estado. Assim, a primeira etapa do processo é a lavagem. “Muitas vezes, tenho que usar uma técnica tradicional, que passa por pôr a roupa a corar ao sol ou ao luar, para ver se as nóduas saem”, explica. Geralmente, nesta fase, conta com a ajuda da mãe, que considera o seu braço direito.
De seguida, o foco é dar largas à criatividade e perceber que nova vida vai nascer naquele tecido. “Eu tenho vários modelos que, normalmente, faço, mas, geralmente, quando olho para uma toalha, consigo logo saber onde é que eu quero os bordados”, confessa. Chega, assim, a hora de pôr mãos à obra e começar a costurar, sendo que o trabalho só está completamente concluído quando há a certeza de que tudo está perfeito. “Depois da camisa estar terminada, muitas vezes nós tapamos buracos ou sinais de desgaste com novos bordados; ou fazemos pequenos remendos para disfarçar o buraco”, expõe.
A responsável revela que trabalha sobretudo, com linho, e, por esse motivo, a qualidade do resultado final é garantida. A este, junta-se ainda o algodão. “São tecidos sustentáveis que, mesmo que sejam descartados, não têm o mesmo impacto no planeta que tem um tecido em poliéster”, realça.
Este trabalho único e personalizado é procurado, principalmente, por mulheres. No entanto, Cristina Garcia adianta que o seu público “é muito transversal”. E apesar da maior parte dos clientes serem portugueses, a “Grita” também já faz sucesso a nível internacional. “Já tive clientes da Alemanha, Austrália e Inglaterra, por exemplo. (…) São, essencialmente, pessoas que valorizam muito estas manualidades, que valorizam o artesanato”, evidencia.
Na sua perspetiva, tal acontece porque a humanização da marca se tem revelado uma mais-valia. “Na ‘Grita’, as pessoas sabem que é a Cristina quem faz a roupa delas. E eu acho que isso também muda muito as coisas (…) É uma proximidade que não há numa loja tradicional”, assume. Essa proximidade estende-se ao sistema de vendas dos artigos. Desde a sua génese, o projeto aposta na venda por ‘drops‘, que consistem no lançamento, a uma hora fixa, de uma pequena coleção.
“É um sistema que permite a pequenos negócios como a ‘Grita’ não terem excesso de stock. Além disso, penso que é uma forma de nos obrigar a saber esperar pelas coisas. Temos que nos sujeitar a que no dia do drop haja a peça que eu gosto e que seja o meu número, porque cada peça é única”, esclarece a fundadora.
Atualmente, Cristina Garcia não se imagina a levar a marca para uma loja física e garante que este método de vendas online tem alcançado bons resultados. “Sinto que este sistema me dá liberdade para eu criar. Felizmente, tem estado a correr bem. As pessoas gostam e eu tenho conseguido escoar os meus produtos”, conclui.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 10/04/2026]