24 de Outubro de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Será o Homem dotado de livre-arbítrio?

23 de Outubro 2026

Este é um problema eminentemente filosófico. Afinal, o ser humano é livre quando decide sobre os seus atos ou as suas decisões e ações são completamente condicionadas por variegados fatores?  Certas correntes filosóficas têm tentado uma resposta a esta questão sem, no entanto, ser conclusiva ou sem se poder discernir qual delas é a mais adequada à realidade. Para Espinosa, determinista radical, a liberdade humana é uma ilusão pois que julgamos ser livres, tal como uma pedra lançada no ar, simplesmente porque desconhecemos as causas determinantes, profundas e obscuras, muitas delas, que limitam as nossas decisões e nos fazem agir de um modo e não de outro e influenciam mesmo a forma de pensar.  Na realidade, a liberdade como dádiva original e natural ao Homem, nunca existiu, pois, mesmo o homem primitivo, vivendo no seio da natureza, estava condicionado pelas alterações climatéricas, pela procura de alimento e pela defesa de ataques dos outros animais e outros espécimes humanos. E se “o Homem é um animal social (político) por natureza” (Aristóteles), ao associar-se em comunidades vive agrilhoado, subordinando-se a leis, valores, regras de educação e comportamentais, costumes e tradições. Ao viver com outros temos de prestar satisfações e fazer cedências, não podendo agir cada um conforme lhe apetece.  Imagine-se o que seria se todos os indivíduos fizessem em sociedade meramente o que lhe apetece. Seria certamente a destruição da sociedade e a aniquilação total da liberdade. Do ponto de vista moral, deve-se agir de modo a não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós (agir pensando nas consequências que os nossos atos possam ter para os outros e não unicamente para nós). Assim, moralmente, agimos livremente se nos submetermos a preceitos que, de qualquer maneira, condicionam a nossa ação. Será, pois, a liberdade uma ilusão? À sobremesa podemos escolher comer fruta ou um doce (T. Nagel), mas não será que a maior parte das pessoas, com diabetes, escolherá a fruta? Estará então a sua decisão condicionada. Poderá, contudo, em certo momento escolher-se comer antes o doce, determinado pelo apetite e desejo e mesmo sabendo que não devia devido à doença, mas haverá outras ocasiões em que não será essa a sua opção. O condicionamento pela doença será determinante na tomada de decisão. Há quem defenda também que um fumador, apesar de conhecer todos os malefícios do tabaco, continua a fumar porque é livre de fazer essa escolha. Mas, o fumador é um viciado e o vício, de ordem fisiológica e psicológica, é que determina o poder de deixar de fumar ou não. A escolha por fumar não é livre porque determinada por hábitos e pelo vício ou prazer; também a decisão de deixar de fumar não é absolutamente livre porque determinada em si por fatores económicos ou relacionados com a saúde (vou deixar de fumar porque…). Em suma, na vida as motivações determinantes do agir e do decidir são inúmeras: físicas, genéticas, fisiológicas, psicológicas, sociológicas, geográficas e históricas, podendo-se provavelmente inferir que na realidade a “liberdade é uma ilusão” porque somos insistentemente determinados tal como tudo o que acontece, uniforme e causalmente, na natureza. Parafraseando Pascal, pode afirmar-se que “(…) há razões que a própria razão desconhece” e que influenciam determinantemente as nossas decisões e atos.


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