23 de Outubro de 2026 | Coimbra
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Lux Records: 30 anos de histórias contadas em discos 

23 de Outubro 2026

CULTURA | A Lux Records nasceu há 30 anos, fruto da paixão de Rui Ferreira pela música. Desde então, já foram editados discos de várias bandas de renome, sendo a maior parte delas de origem conimbricense.

Fundada em Coimbra, a Lux Records editou os seus primeiros CD’s em 1996 e nunca mais parou. Há três décadas que esta tem sido a casa de onde têm saído inúmeros grupos e artistas como Belle Chase Hotel, Tédio Boys, Mão Morta, The Legendary Tigerman ou The Parkinsons. Tudo graças à paixão de Rui Ferreira pela música que o levou a largar a enfermagem e a seguir, de mãos dadas, com os discos e os vinis.

“Ver os bons discos que nós conseguimos editar ao longo destes 30 anos é o que mais me satisfaz”, revela Rui Ferreira, em declarações ao “O Despertar”. Confessa que, quando começou a editora discográfica não pensou que esta fosse vingar durante tanto tempo e, por isso, não são as três décadas que trazem o sabor mais especial. “Acima de tudo, interessa-me mais perceber que, ao longo destes anos todos, conseguimos editar grandes bandas, a maioria delas com origem em Coimbra”, acrescenta.

Foi o amor do seu fundador pela música que levou a Lux Records ao sucesso. Na altura da sua criação, Rui Ferreira ainda era enfermeiro e locutor na Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Recorda que foi António Cunha, – que na época comandava a editora Kaos Records -, quem o convidou a formar este novo projeto. “O primeiro disco editado pela Lux Records foi o CD que assinalava o 10º aniversário da RUC, e que eu estava a coordenar”, lembra. A partir daí, nunca mais nada foi igual. Seguiu-se a edição do álbum de estreia dos Belle Chase Hotel, “Fossanova” e, mais tarde, houve também espaço para Wraygunn, The Legendary Tigerman, Sean Riley & The Slowriders e Bunnyranch.

O trajeto nem sempre foi fácil. O responsável dividia-se entre 35 horas de trabalho no hospital, a direção da RUC e a Lux Records. “Não era fácil conseguir fazer tudo e, sobretudo, fazê-lo bem”, confidencia. Por isso, em 2016, decidiu dedicar-se exclusivamente à música, sendo que os últimos anos têm mostrado que essa foi uma decisão acertada.

“Acho que o que faz mesmo a diferença na Lux Records são os artistas que editamos”, revela, garantindo que “Coimbra tem tido, ao longo do tempo, muito bons músicos e muito talento”. Na opinião do responsável, tem sido esse o segredo para o triunfo da editora. “Quando editas discos de qualidade é normal que as pessoas se associem ao projeto”, salienta.

 

Trazer atenção “para a cidade”

Natural de Coimbra, Rui Ferreira nunca se imaginou noutro sítio. Conta que teve a oportunidade de fixar-se em Lisboa, mas optou sempre por ficar na cidade que o viu crescer. “Eu gosto de estar aqui. Além de ser a localidade onde nasci, é onde está a minha família”, afirma. No entanto, não esconde que desenvolver uma editora discográfica fora dos centros de decisão é um desafio. “Quer queiramos quer não, os principais órgãos de comunicação social estão em Lisboa. Nesse sentido, é muito difícil conseguir que estes se desloquem a Coimbra para assistir a um lançamento de um disco de uma banda”, refere.

Todavia, acredita que o facto de nunca ter desistido da cidade e ter apostado em artistas com origem conimbricense tem feito diferença. “Graças ao talento dos músicos de Coimbra, acho que, durante estes 30 anos, a Lux Records conseguiu trazer atenção para a cidade”, frisa.

Um trabalho que se deixa complementar com a loja “Lucky Lux”. Situada na Baixa da cidade é, desde 2017, um espaço onde é possível encontrar discos novos e usados em vários formatos. A estes juntam-se ainda as edições da Lux Records. “Decidi abrir a loja precisamente quando deixei a profissão de enfermeiro. Isso mudou muito as coisas porque passei a ter um local que ajudou a financiar o resto da atividade da editora, porque, por norma, a editora dá prejuízo, mas a loja não”, expõe Rui Ferreira.

Uma realidade que tem sido visível ano após ano mesmo que, numa fase inicial, pudesse parecer um risco. “Em 2017, quando abri o espaço, o vinil não estava tanto na moda como está hoje (…), mas eu sabia que havia muitos colecionadores de discos em Coimbra que ficaram orfãos porque, entretanto, outras lojas fecharam. No fundo, vi ali uma oportunidade de negócio”, relembra.

Atualmente, não tem dúvidas de que o gosto pelos discos de vinil tem vindo a aumentar novamente. “No início da loja, as pessoas que compravam vinis tinham mais de 40 anos, normalmente. Hoje, noto que muitos dos nossos clientes são adolescentes de 17/18 anos”, adianta, mostrando-se surpreendido, visto que “a tendência seria que as novas gerações só consumissem música nos formatos digitais mas, pelo contrário, tenho percebido que há um número considerável de adolescentes e jovens que querem os discos no formato físico”.

Tendo por base a sua experiência, Rui Ferreira mostra-se esperançoso no que diz respeito ao futuro da música, sobretudo, numa época marcada pela Inteligência Artificial (IA). “Eu espero que a Humanidade continue a preservar e a ter força no meio de um mundo dominado pela IA, porque o que faz a diferença é sempre o fator humano”, apela. Acredita, assim, que “o lado humano da música vai vencer a IA, já que vão existir sempre sentimentos que essa não vai ser capaz de reproduzir”.

 

Talento vai “continuar sempre a aparecer”

Ao longo destas três décadas, inúmeros artistas já passaram pela Lux Records e o mesmo promete continuar a acontecer no futuro. Rui Ferreira admite que, nos dias que correm, continuam a nascer grandes músicos no país e, por isso, “o talento humano vai sempre continuar a aparecer”. Como prova disso, aponta três projetos lançados em setembro, no âmbito do 30º aniversário da editora.

“Um deles foi o EP ‘The Chariot’, que marcou a estreia dos Voronet Blue, uma nova banda de Coimbra”, refere. Seguiram-se ainda o novo single o quinteto de pós-punk, Lovedust, e os Gulag Motel, o novo projeto de Pedro Renato, músico ligado aos Belle Chase Hotel.

Além destas novidades, a Lux Records também assinalou os seus 30 anos de existência com o lançamento do disco “A Date With Lux”. Da autoria de John Mercy, – alter ego de João Rui -, o álbum apresenta uma viagem pelas trés décadas da editora, reinterpretando temas dos vários projetos que esta lançou.

“Acho que a Lux Records nunca teve tanta exposição na comunicação social como tem tido depois de ter sido editado este disco”, assegura Rui Ferreira. Na sua opinião, isto deve-se ao facto de o álbum “ser do John Mercy mas, ao mesmo tempo, como nos leva aos 30 anos da editora, isso fez com que a recetividade do público tenha sido ainda melhor do que esperávamos”, orgulha-se.

O feedback recolhido até ao momento torna-se, desta forma, a certeza de que o lema “a Lux é uma forma de estar na música” está mais vivo do que nunca. “Colocamos a música acima de tudo. A Lux Records não foi fundada para fazer dinheiro através da música. Pelo contrário: foi para servir os músicos e para que eles possam, na sua maioria, ter os seus discos editados. É isso que tem acontecido nestes 30 anos”, conclui.

Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 23/10/2026]


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