A Universidade de Coimbra (UC) volta a ocupar a cidade com a sua XXVIII Semana Cultural, de 1 a 15 de março. Nesta edição, o tema é “Beleza” e o programa assume-o como eixo de ligação entre património, ciência, música e participação pública.
A abordagem vai muito além da dimensão estética. A UC apresenta a beleza como princípio de cultura e de vida em comunidade, articulando a programação com o 736.º aniversário da instituição e com a conclusão das obras de restauro e requalificação do Paço das Escolas. A Semana Cultural cruza-se ainda com o horizonte do Novo Bauhaus Europeu, aproximando Beleza, Sustentabilidade e Inclusão no quadro da sua missão institucional.
Este enquadramento define o tom da edição: a beleza deixa de ser apenas contemplação e passa a critério de programação. Surge como experiência de cidade, de acesso, de memória e de conhecimento partilhado, como herança viva e não apenas como cenário monumental.
Beleza como princípio
A dimensão patrimonial é um dos fios mais sólidos do programa. A referência à UNESCO não surge como ornamento, mas como parte da narrativa da UC sobre o que está em causa quando se fala de beleza: a articulação entre conjunto urbano e arquitetónico, continuidade das funções académicas e impacto cultural duradouro. Na prática, isso ajuda a explicar por que razão a Semana Cultural se distribui por vários espaços universitários e urbanos, em vez de se concentrar num único palco.
Na apresentação pública da programação, o vice-reitor para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Delfim Leão, descreveu esta edição como uma das maiores dos últimos anos. A música domina, mas o cartaz inclui teatro, cinema, multimédia, exposições, oficinas, atividades para crianças e propostas de divulgação científica. A organização aponta para mais de 50 iniciativas centrais, mais de 40 parceiros e mais de 20 espaços, com a maioria das atividades de acesso gratuito, num desenho de grande escala e forte dispersão territorial.
Um dos aspetos mais relevantes é a visibilidade da “beleza da ciência”, particularmente evidente no Departamento de Ciências da Vida. O Herbário da UC surge em destaque com uma exposição centrada no trabalho da artista residente K. Navickaite e com uma visita guiada à coleção de investigação, que reúne cerca de 800 mil exemplares. A este núcleo soma-se uma exposição de fotografia botânica em grande formato, reforçando o diálogo entre visualidade, investigação e património científico.
A entrada da Escola Superior de Enfermagem no programa, com uma atividade dirigida à infância, alarga também o perímetro habitual da Semana Cultural. “A UC pelas crianças: interações e olhares” propõe ateliês, visitas ao património da Universidade e uma instalação final com resultados pedagógicos. É uma tradução concreta da ideia de beleza como experiência partilhada e processo de formação.
Música, memória e transmissão
No plano musical, há vários pontos de interesse, mas dois aniversários funcionam como eixos de leitura. O primeiro assinala os 40 anos da Rádio Universidade de Coimbra, com uma instalação sonora na Casa da Escrita e oficinas radiofónicas para escolas. O segundo marca os 70 anos do Coro Misto da Universidade de Coimbra, celebrados em concerto. Em conjunto, estes marcos reforçam uma ideia central: a beleza também é continuidade e transmissão.
Outra linha particularmente fértil está na articulação entre música, investigação e património instrumental, condensada no ciclo “Entre Vozes e Cristais”. O programa inclui uma oficina e um concerto associados a um instrumento raro, descrito como fusão entre harmónio de arte e celesta, com destaque para a singularidade tímbrica e para o valor histórico da escuta partilhada. É um dos exemplos mais claros de como a Semana Cultural torna o tema “Beleza” operativo, como experiência concreta, situada e pública.
Universidade e cidade em diálogo
Na relação entre Universidade e cidade, o bloco da FEUC dedicado a Miguel Torga merece destaque. A programação reúne uma mostra coletiva de fotografia, visitas à Casa-Museu Miguel Torga com componente performativa, uma conversa intitulada “Sementes de Torga” e um momento de leitura e interpretação em torno da “Ode à Beleza”. É um núcleo relevante pela articulação entre espaço académico, património literário e programação distribuída ao longo de vários dias.
Também a “Cábula Filatélica”, da Secção Filatélica da Associação Académica de Coimbra, oferece um ângulo menos óbvio e, por isso, particularmente interessante. Aqui, a beleza surge em selos, postais e carimbos — isto é, em suportes de memória e circulação que raramente ocupam o centro do discurso cultural, mas fazem parte da história visual e afetiva da cidade.
“A maior beleza é a que ainda temos de construir: um futuro melhor, mais justo e mais humano, por meio da ciência. O que devemos celebrar: as cinzas da obra acabada, que definha, ou a perpetuação do fogo criador?”, questionou Delfim Leão. Com a formulação, desloca o foco do belo como atributo do monumento para o belo como projeto coletivo — precisamente o que a arquitetura desta programação sugere.
No conjunto, a XXVIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra apresenta-se menos como cartaz temático e mais como cartografia cultural da UC em relação com a cidade. As dezenas de atividades surgem ligadas por uma ideia comum de utilidade pública da cultura. É isso que dá força a esta edição: a beleza não aparece como acabamento, mas como método de ligação entre passado e futuro, entre a Universidade e a cidade.
Programação
XXVIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra
1 de março, 21h30 – “Pulchritudines”, concerto de abertura, no Teatro Académico de Gil Vicente.
1 a 15 de março – Núcleo FEUC + Miguel Torga, com mostra coletiva de fotografia, visitas à Casa-Museu Miguel Torga, “Sementes de Torga” (6 de março, 17h00, Biblioteca da FEUC) e “A Beleza em Palavra e Música: Miguel Torga” (13 de março, 17h00, Biblioteca da FEUC).
2 a 13 de março – “A UC pelas crianças: interações e olhares”, na Escola Superior de Enfermagem, com ateliês, visitas ao património da UC e instalação final.
3 de março, 17h00 – “Herbário, Viagem pelo Belo”, no Departamento de Ciências da Vida, com obras da artista residente K. Navickaite.
1 a 15 de março – RUC 40 anos, com instalação sonora “40 Anos, Que Lindo Serviço! Paisagem Sonora da AAC” e oficinas radiofónicas.
5 de março, 18h00 – “Cábula Filatélica”, na Secção Filatélica da Associação Académica de Coimbra.
7 de março, 15h00 e 18h30 – “Entre Vozes e Cristais: Celebração da Beleza”, com workshop no Rómulo e concerto no Conservatório de Música.
9 de março, 17h00 – “Natureza Escondida”, no Departamento de Ciências da Vida, com fotografia botânica em grande formato.
15 de março, 21h00 – Concerto comemorativo dos 70 anos do Coro Misto da Universidade de Coimbra, no Teatro Académico de Gil Vicente.