13 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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Orlando Fernandes

SEMANA A SEMANA – O MEMORIAL DE PEDRÓGÃO…

14 de Julho 2023

Concluída a maratona de inquirições na Comissão Parlamentar de Inquérito, vulgo CPI – criada para apurar o que se passou no labirinto de interesses e de influência cruzadas em que se transformou a TAP -, vieram à tona as contradições e os ´ajustes de contas´ entre os principais atores políticos convocados, um curioso ´painel de bordo´ sobre a arte de sacudir responsabilidades e de encobrir incompetências.

Para além do roteiro das indemnizações pagas a ex-gestores, o que ficou por esclarecer foi a formidável cambalhota do governo e de António Costa que, depois de renacionalizarem a TAP, querem agora voltar a privatiza-la, desdizendo tudo o que anteriormente defenderam.

Tão-pouco se ficou a saber se não teria sido preferível fechar a TAP falida e abrir no dia seguinte outra companhia área, com os melhores ativos da anterior, sem ´gorduras´ escusadas, nem práticas comerciais desajustadas.

Foi o que aconteceu com a Swissair ou a Sabena e não consta que se tenham dado mal com a mudança. Imagine-se o que teria sido poupado aos contribuintes portugueses se, em vez da satisfação de egos e caprichos políticos, se tivesse adotado o mesmo figurino.

Mas não. Assistimos a essa novela absurda, segundo a qual o Governo de Passos Coelho fez a ´má´ privatização da TAP, enquanto a anunciada privatização de António Costa ´ é, que é, formalmente, ´boa´ para salvar a empresa e pô-la a bom recato.

E tudo isto tem sido dito com a mesma naturalidade com que o PS endossou ao PSD as culpas pelas drásticas medidas de austeridade, aceites pelo Governo de Sócrates, e inscritas no memorado negociado com a troika, com a ´corda na garganta´ e o país à beira da bancarrota.

Claro que o afastamento compulsivo de David Neeleman da TAP custou a bagatela de 55 milhões, uns, ´trocos´ se comparados com mais de três mil milhões que foram ´derretidos´ para assegurar a operacionalidade da empresa, revertida para o setor público.

Com a celebrada ´companhia de bandeira´ de regresso à posse do Estado, convidou-se e despediu-se uma CEO francesa, que passou, num ápice de ´bestial a besta´ com o mesmo Governo socialista.

Perante este ´ baile de ´máscaras´, onde cada um procurou tirar a ´cabeça do cepo´, até António Pedro de Vasconcelos, o cineasta-arauto do slogan ´Não TAPe os olhos”, ficou ´ mudo e quedo´, como se nada tivesse acontecido e nunca tivesse rodado esse filme.

Descontada a ´espuma´ mediático, o que pareceu interessar sobremaneira os comentadores avençados foi a ´hermenêutica botânica´ de João Galamba contra Belém e a ´ressurreição´ de Pedro Nuno Santos como putativo candidato à sucessão de António Costa.

Por isso, mais do que o imenso dinheiro gasto, a fundo perdido, numa companhia com futuro incerto, o que esteve em causa foi a ´guerra de herdeiros´, com Fernando Medina e Pedro Nuno Santos em diferentes ´trincheiras´. Sem que nenhum deles ´abrisse o jogo´.

Para já, a vantagem, segundo os media, coube a Pedro Nuno Santos, embora a sua prestação fosse assaz irregular – firme no autoelogio, errática e omissa quando as perguntas o embaraçavam.

Afinal, foi ele quem disse em tempos que “o entendimento à esquerda não foi um parêntesis na história da democracia portuguesa e a direita tem se habituar a isso”. E ao dizê-lo não lhe tremeram as pernas nem gaguejou como na CPI, quando a interpelação foi mais séria.

Uma coisa é certa: o PS, tanto o líder como os ´ajudantes´ gostam de ter os aviões ´debaixo de asa´…

Depois de o ´ex-ajudante´, Hugo Mendes, admitir, nervoso, na CPI, ter sido “infeliz” quando quis alterar um voo da TAP para ´mimar´ Marcelo Rebelo de Sousa, agora foi a vez de o próprio primeiro-ministro aproveitar um Falcon da Força Aérea para fazer uma escala imprevista em Budapeste, quando seguia a caminho de uma cimeira na Moldova.

Motivo desta ´paragem técnica´, omitida pelo seu gabinete: assistir à final de futebol da Liga Europa, lado a lado com o seu homólogo Víktor Orbán. Uma fraqueza.

Depois das trapalhadas com Galamba e o adjunto, o primeiro-ministro resolveu ´arejar´ num estádio húngaro e utilizou um avião oficial, em nome do futebol.

Em contrapartida, falhou a inauguração do Memorial às vítimas dos trágicos incêndios de Pedrógão Grande, enquanto Ana Abrunhosa se desdobrava em desculpas esfarrapadas. As prioridades do chefe do Governo são outras.

Note-se que o Memorial foi obras das Infraestruturas de Portugal, empresa tutelada pelos ministérios de Medina e de Galamba. Mas nem um nem outro tiveram disponibilidade de agenda. Nem António Costa, nem Marcelo. Lamentável.

Moral da história: repetiu-se uma chocante insensibilidade política, confirmando o alheamento dos seus protagonistas em relação do país real, mesmo quando este homenageia em Pedrógão a memória dos seus mortos. A bola é que conta…


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