23 de Maio de 2026 | Coimbra
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Orlando Fernandes

SEMANA A SEMANA: MARIANA MORTÁGUA ASSUME AS RÉDEAS

23 de Junho 2023

A criação do Bloco de Esquerda representa um macro na democracia portuguesa. Quando a Europa os diferentes partidos comunistas desapareciam levados pelos ventos da Parestroika ou sob os escombros do Muro de Berlim, uma Troika composta pelos marxistas da UDP, os trotskistas do PSR e os comunistas desnorteados da Política XXI resiste à mudança e cria o BE. Tinham saudades da democracia soviética, do Pacto de Varsóvia e dos misseis nucleares apontados às suas cabeças. A visão dos povos dos antigos países comunistas a exigir a liberdade e democracia nas ruas horrorizou-os. Os habitantes da RDA a destruírem o Muro de Berlim e a saltarem para a RFA capitalista ultrajou-os. E que os próprios guardas que durante anos tinham abatido as pessoas que queriam escapar do paraíso comunista se tenham juntado à festa, isso ultrapassou todos os limites que poderiam suportar.

Era preciso reagir.

Era preciso mostrar que em Portugal havia intelectuais que jamais aceitariam a democracia liberal e os valores burgueses Tal como a brigada de filósofos e sociólogos franceses que desde Maio de 68, com um copo de champanhe numa mão e uma tosta com salmão fumado na outra, não parou de atacar o capitalismo, eles iriam combatê-lo infiltrando-se também o mais possível os seus luxos e prazeres. Poderiam ter montado as suas bases em Cuba ou na Venezuela, mas em Coimbra e Lisboa estava-se muito melhor.

Porém, para o BE, Cuba é mesmo o modelo ideal que Portugal deveria seguir. Com um partido único, imprensa controlada, comités de defesa da revolução em cada bairro – a PIDE cubana -, ensino gratuito, assistência médica para todos os cidadãos e direito a uma aspirina por mês, Cuba é a Terra. Prometida dos bloquistas que o patriarca Fidel Castro moldou em oposição ao imperialismo americano. A Venezuela também não está mal, já se prende opositores como dever ser e se doutrina o povo na televisão, mas a tendência do ditador Maduro para o disparate e a pantominice não se coaduna com a sobriedade dos intelectuais trotskistas que dominavam o BE.

E é então chegada a vez, depois de Francisco Louçã e Catarina Martins, de Mariana Mortágua se tornar a sucessora deste projeto revolucionário. Mariana tem imensas qualidades que beneficiam um líder político: é inteligente, bonita e tem uma voz femme fatale irresistível. Nos outros partidos, ninguém com a sua idade, se lhe aproxima. É certo que Trotsky é capaz de ter sorrido mais vezes do que ela mesmo antes de conhecer Frida Kahlo, mas este traço de personalidade não a deverá prejudicar num partido de militantes sisudos e zangados com alguma coisa. Tal como no Nome da Rosa o monge Jorge de Burgos associa o risco ao pecado, no BE o riso é considerado uma degenerescência burguesa. Um revolucionário que se preze tem de andar sempre furioso. Como é que alguém pode rir quando os proletários em vez de tomarem as novas Bastilhas, se rendem aos centros comercias? Como se pode andar bem-disposto quando se disparam sel-fles em vez e Kalasknikovs? Nem a dialética marxista explica isto.

Seja como for, no recente congresso do partido Mariana enfrentou opositores extremistas, amigos de Putin ou de qualquer genocida antiamericano, o que faz dela, dentro do BE, uma surpreendente direitista – talvez mais moderada do que Pedro Nuno Santos e seus amigos. E é assim, envolta numa aura de moderação, a roçar a heresia revolucionária, que Mariana vai defrontar aquele que já definiu como seu principal inimigo; o PS de António Costa. E quem sabe se no debate entre ambos não ira surpreender toda a gente recorrendo à tal arma que não se julgava dispor. Quando António Costa começar a elencar o seu legado glorioso de proezas sociais e económicas, a viragem da página da austeridade e o combate à corrupção, quando António Costa estiver realmente a acreditar no que está a dizer, nesse exato momento talvez Mariana desate há gargalhadas.


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