Descreve o autor “o perfil dos deputados da Assembleia Nacional, a qual representava mais o sistema político do que o país real, o que na prática vai manietá-la nos seus pressupostos teóricos e transformá-la numa coorte do Presidente do Conselho, atenta, veneradora e obrigada”.
Frontal e decisivo nos seus propósitos, logo em 1933, Salazar não se eximiu a proclamar o que pensava do assunto: “Eu sou, de facto, profundamente antiparlamentar, porque detesto os discursos ocos, palavrosos, as interpelações vistosas e vazias, a exploração das paixões não à volta de uma grande ideia, mas de futilidades, de vaidades, de nadas sob o ponto de vista do interesse nacional. O Parlamento assusta-me tanto que chego a ter receio, se bem que reconheça a sua necessidade, daquele que há de sair do novo estatuto… Para pequeno parlamento – e esse é útil e produtivo, como no caso atual – basta-me o Conselho de Ministros…”
Não constituiria tamanho absurdo, como de chofre se apresenta, concordar desapaixonadamente com a caracterização do Parlamento por Salazar, no contexto periodal da ditadura militar e do trepidar dos “ensaios” do Estado Novo o que, aliás e objetivamente, pouco alteraria o seu conceito, se vivesse no tempo presente, face ao comportamento de muitos deputados durante os debates na Assembleia da República.
Além disso, esta comporta um número excessivo de deputados; adota o método D´Hondt para favorecer os maiores partidos e excluir os pequenos; concentra os seus apports nos grandes centros populacionais, o que afasta aqueles da concorrência partidária; e transforma o hemiciclo num espaço de declamação de paixões e vaidades dos oradores de serviço, a gladiarem-se com motejos que afrontam a venerável casa da democracia, sobre questões partidárias medíocres, fúteis, que consomem grande parte do tempo destinado aos debates programados; reflete a degradante imagem dos restantes, e muitos, deputados a cumprirem a missão de “corpo presente” e a “queimarem”o tempo em jogos de computador, à espera dos chorudos ordenados, em cúmulo com generosas mordomias, à custa dos réditos dos verdadeiros trabalhadores.
Cabe aqui, a propósito, lembrar António Aleixo: “Quem trabalha e mata a fome//, não come o pão de ninguém//; mas quem não ganha o pão que come//, come sempre o pão de alguém”.