24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Rainha Santa: prosa em verso p’rá Rainha

19 de Dezembro 2025

Quem se deslocar à Capela da Quinta das Lágrimas, dar – se – à perante a formosura, a singeleza, a pujança de uma imagem da Rainha Santa, ali postada nos anos de 1860, de acordo com testemunhos ancestrais, medievais. A Rainha é merecedora do preito daquele lugar lindíssimo, já que foi Ela uma das intervenientes privilegiadas da arquitectura daquele espaço histórico e fantasioso.

Em Coimbra, mesmo os homens de pouca crença, confiam na Rainha Santa, e só nela, para os proteger ou acolher os seus rogos mais profundos. Há 650 anos já peregrinavam atrás da sua imagem de um lado do Mondego para o outro, no dia 4 de Julho. (Leia – se Água das Lágrimas, Cristina Castel – Branco, pag.43.)

Posso afirmar aos meus leitores que sou agnóstico. Por esse facto, ainda hoje não compreendo a veneração que tenho por esta Rainha e pela figuração eloquente da autoria do grande mestre Teixeira Lopes.

A sua perfeição e serenidade impressionam-me; as rosas que transporta relevam para mim uma lenda que me empolga.

Sempre que estava em Coimbra ou estando, salvo força maior, deslocava – me à Igreja da Graça ou à Igreja de Santa Cruz: visitá-la, olhá-la no seu rosto ameigado, um misto de tristeza, de beleza, de compreensão para com os desesperados homens do mundo.

No silêncio que se erguia em seu redor, falava com ela, e obtinha sempre resposta. Depois despedia-me e saía confortado.

Este ano não pude visitá – lá, mas falei com ela, baixinho, através deste estilo que designei de prosa – verso

 

I

 

Rainha Santa, Rainha minha;

Desces hoje ao povoado,

Imperial e serena,

P’ra ver o povo que te venera.

Tens, humildemente, os olhos postos nas rosas,

Das quais fizeste pão,

Saciando da fome os desabrigados.

 

II

 

Todos os anos ia ver-te à igreja,

Onde pousavas no teu andor;

Olhava-te, linda, em silêncio profundo.

Parecia que rias,

Abandonava-te com a alma redobrada.

 

III

 

Este ano faltei, olho-te de longe, daqui, deste lugar,

Converso contigo, e o que me dizes Rainha?

“Resiste, homem, resiste. Este mal que sentes o meu manto

calará; voltarás a ver-me no meu andor. E comigo

conversarás.”

– “Assim farei minha Rainha; aguardo ver o teu manto, nas

entranhas do meu silêncio mais profundo.

Até lá o meu bem-querer.”

 

 


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