Quem se deslocar à Capela da Quinta das Lágrimas, dar – se – à perante a formosura, a singeleza, a pujança de uma imagem da Rainha Santa, ali postada nos anos de 1860, de acordo com testemunhos ancestrais, medievais. A Rainha é merecedora do preito daquele lugar lindíssimo, já que foi Ela uma das intervenientes privilegiadas da arquitectura daquele espaço histórico e fantasioso.
Em Coimbra, mesmo os homens de pouca crença, confiam na Rainha Santa, e só nela, para os proteger ou acolher os seus rogos mais profundos. Há 650 anos já peregrinavam atrás da sua imagem de um lado do Mondego para o outro, no dia 4 de Julho. (Leia – se Água das Lágrimas, Cristina Castel – Branco, pag.43.)
Posso afirmar aos meus leitores que sou agnóstico. Por esse facto, ainda hoje não compreendo a veneração que tenho por esta Rainha e pela figuração eloquente da autoria do grande mestre Teixeira Lopes.
A sua perfeição e serenidade impressionam-me; as rosas que transporta relevam para mim uma lenda que me empolga.
Sempre que estava em Coimbra ou estando, salvo força maior, deslocava – me à Igreja da Graça ou à Igreja de Santa Cruz: visitá-la, olhá-la no seu rosto ameigado, um misto de tristeza, de beleza, de compreensão para com os desesperados homens do mundo.
No silêncio que se erguia em seu redor, falava com ela, e obtinha sempre resposta. Depois despedia-me e saía confortado.
Este ano não pude visitá – lá, mas falei com ela, baixinho, através deste estilo que designei de prosa – verso
I
Rainha Santa, Rainha minha;
Desces hoje ao povoado,
Imperial e serena,
P’ra ver o povo que te venera.
Tens, humildemente, os olhos postos nas rosas,
Das quais fizeste pão,
Saciando da fome os desabrigados.
II
Todos os anos ia ver-te à igreja,
Onde pousavas no teu andor;
Olhava-te, linda, em silêncio profundo.
Parecia que rias,
Abandonava-te com a alma redobrada.
III
Este ano faltei, olho-te de longe, daqui, deste lugar,
Converso contigo, e o que me dizes Rainha?
– “Resiste, homem, resiste. Este mal que sentes o meu manto
calará; voltarás a ver-me no meu andor. E comigo
conversarás.”
– “Assim farei minha Rainha; aguardo ver o teu manto, nas
entranhas do meu silêncio mais profundo.
Até lá o meu bem-querer.”