PEÇO A PALAVRA! – foi assim que ALBERTO MARTINS, presidente da Direção Geral da Associação Académica de Coimbra, a 17 de abril de 1969, se dirigiu ao então Presidente da República, Américo Tomás, o qual, acompanhado de alguns ministros, veio a Coimbra inaugurar o novo edifício das Matemáticas. A Academia de Coimbra estava ao rubro em busca de uma Nova Primavera num país envelhecido e carcomido pelo comportamento bafiento do Estado Novo. Censura, Guerra nas Colónias, Universidade caduca. O estudante e dirigente da Associação Académica, ALBERTO MARTINS, não teve direito à palavra e ficou sob a alçada da polícia política.
Agora, vejam o seguinte:
Nessa ocasião eu tinha lançado um jornal semanário com o título CENTRO DESPORTIVO. Dentre vários colaboradores constava o professor ALBERTO MARTINS conceituado treinador de basquetebol.
O que sucedeu?
Todos os artigos assinados pelo professor, treinador e colaborador do CENTRO DESPORTIVO, ALBERTO MARTINS, eram cortados pela Censura apenas porque o nome era igual ao do presidente da Direção Geral da Associação Académica. Ato elucidativo do tom persecutório e ridículo da Censura. Relato-o hoje por me parecer oportuno.
Ainda:
No mesmo jornal desportivo eram publicadas crónicas de jogos enviadas pelos correspondentes. Algumas vezes referiam que a GNR não teria feito a devida intervenção e “houve desacatos na assistência”. A CENSURA CORTAVA qualquer alusão a por em causa a GNR.
Mais tarde, a nível da rádio, proibição para alguns cantores e com os de Coimbra como Zeca, Adriano e Bernardino a serem mais penalizados. Havia uma lista a indicar as CANÇÕES PROIBIDAS com referência objetiva ao tema, autores e editora fonográfica. Uma ou outra vez ainda foi possível, mas raro, encontrar versões instrumentais e, DISCRETAMENTE, enunciávamos, como locutores, uma parte do poema, da letra. Um drible suave à Censura.
A CENSURA não era inteligente e caiu de podre tal como o regime. Em Portugal, como na Europa e nos Estados Unidos, estavam a surgir tempos de rutura perante comportamentos que pareciam fixar-se e serem norma. A juventude, inconformada e melhor informada, rompeu essas normas antigas e anquilosadas. E veio, em Portugal, ABRIL DE CRAVO VERMELHO AO PEITO.
Vamos festejar os 50 anos do 25 de Abril. Houve muitos avanços positivos, obviamente, mas também alguns preocupantes recuos em relação aos puros objetivos da Revolução dos Cravos. Há dois milhões de portugueses pobres enquanto aumenta, de forma obscena, o número de ricos cada vez mais ricos.
É importante que cada português medite nos objetivos iniciais da Revolução que se comemora e contribua para um Portugal mais justo, progressista, humanista e fraterno.
Vamos fazer florir a Esperança?